Metanoia: Da Culpa à Participação na Verdade

Hoje recebi a visita do meu instrutor na Gnose e, em seguida, fui à sessão de terapia. Conversei com a terapeuta sobre o caminho que venho trilhando e sobre como tem sido interessante perceber que, embora eu ainda não tenha uma direção completamente definida, há uma sensação de que estou seguindo pelo rumo certo — um caminho que me faz bem e traz sentido à minha vida.

Comentei com ela também que, em algumas conversas que tive com amigos filósofos e com meu mestre, refletimos sobre o quão turva pode ser a definição de certo e errado. Foi-me sugerido que essa distinção poderia ser substituída por “aquilo que convém” e “aquilo que não convém”. Isso me levou ao seguinte questionamento: convém a quem? A mim mesmo? E, sob essa perspectiva, seria correto afirmar que o conveniente é, em alguma medida, relativo?

Essa formulação me parece problemática, pois, embora possamos reconhecer que existem diferentes pontos de vista conforme o observador, a Verdade — entendida como correspondência ao fato em si — deveria ser una. As interpretações variam; o fato, porém, permanece.

Retornamos, então, à questão inicial: como julgar o que é certo e o que é errado?

Uma hipótese seria considerar que a consciência é capaz de oferecer essa resposta. No entanto, sabe-se que a consciência humana não é plenamente lúcida nem totalmente imparcial; ela é influenciada por condicionamentos culturais, emocionais, sociais e até inconscientes. Aquilo que percebemos como “voz interior” pode, muitas vezes, ser apenas a expressão desses condicionamentos.

Surge, assim, um novo impasse: se a moral não pode ser reduzida à conveniência e se a consciência individual pode estar obscurecida, onde encontrar um critério seguro para distinguir o certo do errado?

O decálogo cristão propõe uma resposta. Para os momentos em que nos faltam lucidez, clareza ou consciência — como preferirmos chamar —, há os mandamentos divinos, ao mesmo tempo misteriosos e objetivos.

Por exemplo, nestas últimas semanas tenho refletido sobre o quinto mandamento: “não roubarás”. Em uma primeira leitura, poderíamos interpretá-lo como a simples proibição de tomar algo material de alguém e apropriar-se indevidamente do que não nos pertence — uma compreensão literal e talvez limitada.

Entretanto, a mensagem pode ser mais ampla. O “não furtar” não precisa restringir-se apenas a bens materiais. Alguém que toma o tempo do outro com algo desnecessário não estaria, de certo modo, roubando-lhe algo precioso? Da mesma forma, alguém que possui determinado talento ou habilidade e não o emprega não estaria furtando da humanidade a contribuição que poderia oferecer? E, ainda, ao não desenvolver e aplicar seus próprios dons, não estaria roubando de si mesmo as possibilidades, os frutos e as realizações que poderia alcançar?

Ao relembrar minha jornada, vem-me à memória a imagem de minha mãe lendo a Bíblia para Crianças para mim e meu irmão. Recordo-me de quando acreditava que Deus estava distante, observando minhas ações e pronto a me punir caso eu O desobedecesse — talvez reflexo de uma educação mais punitiva do que instrutiva.

Próximo ao meu aniversário de 40 anos, contudo, experimentei uma espécie de metanoia: deixei de perceber Deus como uma presença externa e vigilante e passei a compreendê-Lo como realidade interior — não distante, mas fundamento da minha própria consciência e razão.

No Evangelho de João (14:6), Jesus declara: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Se Deus é o Caminho, a Verdade e a Salvação — princípio, meio e fim de toda jornada interior — então a busca pelo critério do que é certo talvez não esteja na conveniência subjetiva, mas no alinhamento com essa Verdade.

Se Deus é o Todo, nada existe fora d’Ele. Contudo, isso não significa que eu seja Deus em essência, mas que participo de Sua realidade, que existo n’Ele e por Ele. Há diferença entre identidade e participação.

Assim, talvez o critério moral não seja simplesmente “o que me convém”, mas aquilo que me aproxima da Verdade que me fundamenta. O certo seria aquilo que me harmoniza com essa ordem maior; o errado, aquilo que me afasta dela.

Nesse sentido, a consciência não seria a fonte última da moral, mas o lugar onde a Verdade pode ecoar — quando não está obscurecida. A tarefa, então, não é inventar o bem, mas purificar a percepção para reconhecê-lo.

Para além desses questionamentos, existe o Sérgio – prazer, sou eu. E ele está a se questionar o que é certo e o que é errado para tentar se encaixar de forma assertiva neste mundo. Ele acredita que a busca pela Verdade é necessária para que a humanidade consiga compreender melhor seus semelhantes; possa se erigir; evoluir; educando-se no sentido literal e se apropriando do que o ser humano tem de melhor a oferecer para si mesmo e para o próximo.

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