Amor, consciência e contradição.
Tenho andado em pé de guerra com a Gnose.
Não chega a ser um rompimento. Ainda não. Mas também já não é encanto.
No começo, parecia que eu tinha encontrado um caminho que conversava comigo. As ideias encaixavam. As crenças faziam sentido. Havia uma sensação boa de reconhecimento — como quando algo, finalmente, encontra lugar dentro da gente.
Com o tempo, no entanto, algumas arestas começaram a aparecer. Pequenas no início. Depois, nem tanto. Certos dogmas passaram a incomodar. E eu comecei a me perguntar, com mais honestidade do que conforto: será que é por aqui mesmo?
Volto para outubro de 2024.
Eu tinha acabado de me separar da Fernanda. A vida, de repente, tinha outro gosto. Outras perguntas. Eu tentava me reencontrar no meio disso tudo — meio sem mapa, meio na intuição.
Foi quando escrevi um texto. Sem muita pretensão. Mais como quem precisa organizar o que sente. Depois, ele virou um vídeo curto, narrado. Uma tentativa de dar forma ao que, por dentro, ainda era processo.
Naquela época, eu já vinha amadurecendo algumas ideias sobre Deus e espiritualidade. Muito disso nasceu nas sessões de coaching com a Sílvia — minha ex-sogra, formada pelo Instituto Brasileiro de Coaching. Ela precisava praticar. Eu precisava me entender. Deu certo, à nossa maneira.
E, apesar de eu já perceber certa incoerência na figura à frente da organização — alguém que falava de serviço à humanidade e fraternidade, mas cobrava rios de dinheiro por isso —, o processo em si me ajudou. Bastante.
Foi ali que comecei a juntar pedaços.
A olhar para a minha vida com mais integração.
A me enxergar — não por inteiro, mas com menos ruído.
O vídeo nasceu desse lugar.
Ao mesmo tempo, havia um outro incômodo, mais silencioso.
Eu vivia — e vivo — em um país majoritariamente cristão. E dentro de uma sociedade que, muitas vezes, tropeça na própria ideia de amor. Relações que não são tão sinceras quanto parecem. Afetos atravessados.
E eu tentava lidar com um fato simples: eu não acreditava naquele Deus barbudo, sentado numa nuvem, julgando todo mundo.
Isso nunca fechou para mim.
Na minha compreensão — ainda limitada, reconheço —, parecia que a maioria de nós estava apenas tentando aprender. Aprender o que é o Amor. Aprender a se posicionar no mundo sem ferir tanto — nem a si, nem ao outro.
Gente tateando. Errando. Tentando de novo.
Então, por que julgar?
Por que condenar alguém que nasceu sem saber e ainda está tentando entender?
Se Deus é amor — como me ensinaram no catolicismo —, por que não acolher? Por que não ensinar com gentileza?
Para mim, isso nunca fez sentido.
Mas admitir as minhas crenças… não foi simples.
Significava romper com algo muito profundo.
Com a base onde fui criado.
Com a forma como meus pais — com todo carinho do mundo — me ensinaram a ver a vida.
E sustentar esse lugar era difícil. Ainda é, às vezes.
Porque não se trata de negar o amor que recebi.
Mas de reconhecer que, sob a minha perspectiva, algumas coisas já não se mantêm.
Naquela época, eu já começava a perceber: amor e espiritualidade não cabem em caixas. Não são sistemas fechados. Não obedecem tão bem às nossas tentativas de controle.
São mais vivos do que isso.
E continuam sendo.
Hoje, ainda acredito que o amor é dinâmico. Complexo. E, sobretudo, inquieto. Ele nos puxa para perguntas incômodas. Faz a gente revisitar certezas que pareciam sólidas.
E, nesse meio tempo, eu também flertava com outras ideias.
O amor livre, por exemplo.
Em algum nível, fazia sentido. Eu já admitia que uma pessoa poderia amar mais de alguém ao longo da vida — e até ao mesmo tempo. Isso não me parecia absurdo.
Mas, conforme eu amadurecia um pouco mais, comecei a ver outras camadas.
Nem sempre é liberdade.
Às vezes, é vaidade.
Às vezes, é orgulho disfarçado de evolução.
E, principalmente, eu via os efeitos.
Mágoas.
Ciúmes.
Ruídos difíceis de suportar.
Para mim, pelo menos.
E então ficou mais claro: não se trata de julgar quem vive assim. Eu, de verdade, admiro quem consegue — quem dialoga bem com esse tipo de relação.
Mas, para mim, não funciona.
O que eu busco é mais simples — e, ao mesmo tempo, nada simples: viver de forma leve. Coerente. Honesta comigo mesmo.
E, se possível, amar sem me perder no caminho.
E talvez seja justamente aí que a minha tensão com a Gnose volte a aparecer.
Porque, em alguns momentos, ela me soa rígida demais. Como se o caminho espiritual exigisse um afastamento do corpo, do desejo — como se certas dimensões da experiência humana precisassem ser contidas, controladas ou até negadas. Às vezes, isso alcança a forma de amar. A diversidade. O próprio prazer.
E isso me inquieta.
Não porque eu ache que tudo deva ser vivido sem critério. Já entendi, na prática, que nem toda liberdade é leve — e que o desejo, quando não compreendido, também pode nos confundir.
Mas, ainda assim, algo em mim resiste à ideia de que evoluir espiritualmente seja se afastar de partes inteiras de quem somos.
Se somos — como algumas tradições sugerem — corpo, desejo, emoção, pensamento e algo além disso tudo… então talvez o caminho não seja negar essas camadas, mas aprender a integrá-las com consciência.
Não como quem se perde nelas.
Mas como quem também não precisa fugir.
Penso, às vezes, no Bhagavad Gita. No Arjuna, paralisado no campo de batalha, diante do conflito que não queria viver. E em Krishna, que não o convida a fugir — mas a enxergar com clareza.
Não se trata de eliminar o conflito.
Mas de encontrar um centro a partir do qual seja possível agir.
Um lugar onde as forças que nos atravessam — desejo, medo, dever, afeto — não desaparecem, mas passam a ser vistas com mais lucidez.
Talvez seja isso que eu esteja buscando.
Não um caminho que negue partes de mim.
Mas um lugar interno onde elas possam se encontrar sem me fragmentar.
No vídeo em questão, eu já dizia: o Deus em que acredito — esse Deus de Amor — também é misericordioso e sábio. Não é um juiz distante, mas uma presença viva que se manifesta nos gestos de bondade e nos encontros verdadeiros.
Minhas experiências já vinham me mostrando que há algo maior que nos une. Que a vida é feita de sincronicidades — e de bênçãos que, muitas vezes, chegam disfarçadas.
Se cabe aqui um convite, é simples:
pare por um instante e se pergunte — de que forma a vida já está te abençoando agora?
É curioso como, ao longo do tempo, figuras consideradas ungidas surgem: Krishna, Buda, Jesus, Maomé, Samael… Como se, de tempos em tempos, a própria existência nos lembrasse do essencial. Como se fosse preciso reaprender — sempre — aquilo que a gente insiste em esquecer.
Porque, no fundo, talvez seja isso: nos perdemos nas formas, nas certezas, no material. E, de repente, já não reconhecemos o que realmente importa.
Eu não tenho todas as respostas. Não sei explicar, com precisão, a existência histórica de Jesus ou os contornos dos dogmas. Mas sigo aquilo que, para mim, faz sentido: o legado de amor e compaixão.
Cada um percorre o seu caminho.
E, para mim, a beleza está justamente nessa liberdade — de escolher como viver o amor e a espiritualidade.
Hoje, o meu exercício é simples — e diário: ser honesto comigo mesmo e com os outros. Respeitar as diferentes formas de amar. E aceitar que nem todo caminho é o meu.
Se a minha sinceridade puder tocar alguém, já valeu.
Porque talvez seja disso que a gente precise um pouco mais:
menos máscaras, mais verdade.
E, no fim, volto ao convite daquele vídeo — que ainda ecoa em mim:
que tal construir pontes sobre os abismos?
Reconhecer nossas fragilidades.
E, ainda assim, confiar na força que o amor pode nos dar.
E talvez, no fim das contas, a minha questão com a Gnose não seja a busca pelo alto —
mas a dificuldade de aceitar quando esse caminho parece me pedir para negar o que ainda pulsa aqui embaixo.
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