Entre o Louva-Deus e a Abelha.

Já é noite quando começo a escrever. Não exatamente por disciplina, mas por uma espécie de necessidade silenciosa de não deixar escapar aquilo que, se não for registrado agora, talvez se dilua na pressa do dia seguinte. Há algo nesses pequenos acontecimentos que pede atenção — não urgência, mas presença. E é a partir desse estado que tento organizar o que vivi nos últimos dias.


Dois insetos entraram na minha casa em dias diferentes.

E, de forma inesperada, organizaram algo em mim.


O primeiro apareceu na semana passada: um louva-deus.


Imóvel. Preciso. Quase como se estivesse em oração.


Há nele uma qualidade rara hoje em dia: presença absoluta.


O louva-deus não se move à toa.


Ele observa, espera — e só então age.


Naquele momento, não dei muito significado.


Mas, olhando agora, percebo que ele surgiu exatamente quando eu estava imerso em excesso de pensamento e pouca ação.


Ansiedade com o tempo.


Sensação de estar sempre devendo algo a mim mesmo.


Muitas ideias — pouca sustentação.


Talvez o louva-deus não tenha vindo falar de ação.


Mas daquilo que vem antes dela:


alinhamento.


Saber onde colocar a energia


antes de simplesmente se mover.


Dias depois, hoje, apareceu o segundo visitante: uma abelha.


E o contraste não poderia ser mais claro.


Se o louva-deus representa a pausa consciente, a abelha representa o movimento com direção.


A abelha não hesita.


Ela trabalha.


Mas não de qualquer forma — existe ordem, constância, função.


Cada movimento tem propósito. Cada esforço constrói algo maior.


E talvez seja exatamente isso que tem me faltado não entender — mas sustentar.


Nos últimos dias, tenho tentado reorganizar minha vida: enviar currículos, estudar, escrever, treinar, criar uma rotina minimamente estável. Tenho refletido muito sobre o tempo — sobre como ele escorre quando não estou presente, e sobre o esforço necessário para habitá-lo de verdade.


Escrever tem sido uma forma de organizar o caos interno.


Mas cansa.


A musculação, por outro lado, organiza pelo corpo.


Silencia a mente.


São dois tipos de esforço.


Mas ambos exigem a mesma coisa:


continuidade.


E é aqui que a abelha se torna quase incômoda de tão precisa.


Porque ela não fala de intensidade.


Fala de repetição.


Não fala de motivação.


Fala de constância.


E isso me atravessa diretamente.


Porque não se trata apenas de mim.


Existe uma responsabilidade concreta: sustentar minha vida e a do meu filho. Garantir estabilidade, cuidado, direção. E isso não se constrói com picos de energia — mas com presença sustentada ao longo do tempo.


Curiosamente, vejo esse mesmo princípio em algo muito simples — e muito próximo.

 

A Márcia.


Ela cuida da faxina da família há muitos anos, desde antes mesmo do falecimento da minha vó Rosa. Sua presença é constante, discreta — mas essencial.


A casa não se mantém organizada por um grande esforço isolado.


Mas por manutenção.


Por repetição.


Por cuidado contínuo.


E talvez seja exatamente isso que eu esteja aprendendo a fazer comigo mesmo.


Se olho para esses dois encontros em sequência, a mensagem se organiza quase sozinha:


primeiro, o louva-deus —

pare, observe, alinhe.


depois, a abelha —

aja, sustente, construa.


Um sem o outro não funciona.


Observar sem agir vira estagnação.

Agir sem alinhar vira desgaste.


Talvez o ponto esteja justamente nessa transição —

e é exatamente nela que eu me encontro agora.


Ainda ajustando.

Ainda aprendendo.


Mas com uma percepção mais clara:


disciplina não é rigidez.

É cuidado.


É a forma de transformar tempo em estrutura.

Intenção em realidade.


No fim, continuo diante da mesma tarefa — simples de entender, difícil de sustentar:


usar melhor o tempo,

cuidar da energia,

fazer o que precisa ser feito.


Com atenção, como o louva-deus.

Com constância, como a abelha.


Um dia de cada vez.

 

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