“Inimigos Invisíveis da Vida Organizada” — a falta de confiança em si próprio.
Por ora, isto se apresenta apenas como uma introdução — um ponto de partida, talvez, para algo que ainda não está completamente claro em mim.
Retorno a esse movimento de escrita não apenas para registrar uma compreensão recente, mas como uma tentativa de manter alguma continuidade com aquilo que venho observando em mim nos últimos dias: meus ritmos, a forma como tenho lidado com o tempo, com a disciplina e com as responsabilidades que me atravessam.
Hoje, assisti à última aula do minicurso “Inimigos Invisíveis da Vida Organizada”, ministrado pela professora Lúcia Helena Galvão. No entanto, em vez de simplesmente resumir o conteúdo ou trazer algumas anedotas, como vinha fazendo até aqui, sinto que há algo que pede outro tipo de elaboração — mais próximo daquilo que estou vivendo agora.
A tentativa, portanto, não é exatamente concluir, mas relacionar. Ainda que eu reconheça não ter tido muito sucesso em chegar a conclusões realmente eficazes — ou, ao menos, que se sustentem no meu dia a dia —, há um esforço em curso: compreender como essas ideias se encontram com a experiência concreta que venho vivendo.
Vale lembrar que esses exercícios mentais não surgem de forma isolada. Eles se apoiam em uma crença mais ampla: a de que a vida está, de alguma forma, em constante diálogo comigo, e de que há algo a ser aprendido à medida que consigo escutá-la com mais atenção.
Nesse contexto, acrescenta-se uma reflexão (ou aprendizado) que me ocorreu ontem, durante uma das conferências gnósticas das quais costumo participar: a de que até mesmo aquilo que chamamos de “magia branca” — diferenciada da “negra” pela intenção genuinamente benéfica — opera a partir de uma mesma força fundamental que habita o ser humano; uma energia que, em seu estado não transformado, pode nos vincular aos aspectos mais densos da existência, mas que, quando corretamente compreendida e conduzida, torna-se instrumento de elevação e realização interior.
Talvez isso se conecte com algo que venho tentando compreender a partir da ideia hindu da constituição septenária do ser. Se uma parte de mim está inevitavelmente ligada às dimensões mais densas — à materialidade, às emoções, aos desejos e ao pensamento mais imediato —, é justamente a partir dessas camadas que encontro os meios de me mover no mundo.
Não como uma contradição, mas como ponto de partida.
Porque é também a partir dessas mesmas camadas que, pouco a pouco, parece possível reunir forças para acessar algo mais elevado — uma mente que busca maior clareza, uma intuição que me inclina a permanecer na escrita, a sustentar este diário como parte do meu próprio processo de amadurecimento, e uma vontade que, por vezes, suspeito não ser apenas minha, mas expressão de algo mais profundo.
Talvez seja isso que, por ora, consigo compreender: a necessidade de aprender a caminhar com aquilo que há em mim — sem rejeitar uma parte em favor da outra, mas integrando-as no movimento. Afinal, entenda quem entender: é preciso aprender a andar com o pé direito, sem deixar de utilizar também o esquerdo.
Feita essa introdução, sigo adiante com o resumo da aula.
“Inimigos Invisíveis da Vida Organizada” — a falta de confiança em si próprio.
A aula de hoje foi uma continuação direta das anteriores, que abordaram defeitos que nos impedem de realizar nossos objetivos. Os dois primeiros inimigos analisados foram a procrastinação e a ansiedade. Já o de hoje — talvez o principal sabotador entre eles — é a falta de confiança em si mesmo, que pode ser entendida como uma espécie de ruptura de um pacto interno.
Por alguma razão, em algum momento, deixamos de confiar em nós mesmos — e, a partir daí, algo se paralisa. Diferente da procrastinação e da ansiedade, que muitas vezes se manifestam de forma mais evidente, a falta de autoconfiança atua de maneira quase imperceptível, corroendo, aos poucos, a capacidade de agir. Sem confiança, não há iniciativa; e, sem iniciativa, a vida deixa de se mover.
Essa perda de confiança costuma vir acompanhada de uma voz interna já bastante conhecida: a de que não somos capazes, de que não somos suficientes, de que os outros estão sempre à frente. Uma voz que, ao que tudo indica, não surge de forma espontânea, mas é construída ao longo do tempo — especialmente por meio de um hábito profundamente enraizado: a comparação.
Vivemos como se estivéssemos em uma corrida constante. Fomos ensinados a medir nosso valor a partir do desempenho dos outros, como se a realização pessoal dependesse, necessariamente, da superação alheia. Nesse processo, o espírito competitivo se sobrepõe ao cooperativo — e a comparação, que poderia eventualmente servir como referência, transforma-se em um critério de invalidação de si mesmo.
Há, portanto, uma distorção: passamos a comparar os bastidores da nossa vida com o palco dos outros. Ignoramos contextos, histórias, tempos e caminhos distintos e, ao fazer isso repetidamente, minamos nossa própria confiança.
Talvez por isso, recuperar esse eixo passe, antes de tudo, por abandonar esse tipo de comparação — ou, ao menos, ressignificá-la. A única comparação que parece legítima, seguindo essa linha de raciocínio, é aquela que fazemos com quem fomos no passado — não como forma de cobrança, mas como reconhecimento de percurso e das potências que já se manifestam em nós.
A aula também aponta para um aspecto bastante prático — e, ao mesmo tempo, exigente: a autoconfiança se constrói a partir do cumprimento dos compromissos que estabelecemos conosco. Cada promessa feita e honrada fortalece esse vínculo interno; cada promessa quebrada o enfraquece.
Desse modo, a confiança deixa de ser uma ideia abstrata e passa a ser quase uma consequência: uma espécie de memória acumulada de coerência. Não se trata de acreditar que tudo dará certo, mas de saber que, independentemente do resultado, haverá continuidade — tentativa, aprendizado e recomeço.
Reconheço que vou errar, mas vou errar tentando e, caso eu fracasse, atribuirei a esse fracasso o significado de aprendizado, pois o próprio processo de aprender inclui desvios de caminho. Faz parte — não há necessidade de dramatizar.
Se agir implica errar, evitar o erro é, em alguma medida, evitar a própria ação.
A partir daí, a aula introduz uma direção: a ideia de um ideal. Um referencial interno — não como padrão rígido, mas como orientação. Uma imagem do ser humano que desejamos nos tornar. Assim, organizar a vida passa a significar alinhar as ações cotidianas a esse ideal, ainda que de forma gradual e imperfeita.
Quando nos afastamos desse eixo, algo em nós se desorganiza. Quando nos aproximamos, há uma sensação de coerência — como se, pouco a pouco, as partes começassem a se integrar.
Ao final, há uma síntese que, de certa forma, amarra todo o percurso do minicurso: a procrastinação rouba o futuro, a ansiedade rouba o presente e a falta de confiança rouba a identidade. Três forças internas que desorganizam não apenas a rotina, mas a própria relação que estabelecemos com a vida.
Em contrapartida, surgem também possíveis aliados: a ação consciente, a presença e o compromisso consigo mesmo.
Porque, no fundo, a organização que se busca não começa na agenda — começa em algo mais íntimo, mais difícil de medir, mas também mais decisivo.
Talvez esse ponto de partida possa ser compreendido a partir de três dimensões que se entrelaçam.
A primeira delas diz respeito à intenção — ou, de forma mais silenciosa, à direção interna que orienta as nossas ações. Antes de qualquer planejamento, existe uma escolha, ainda que nem sempre consciente, sobre o que importa e aquilo que merece o nosso tempo e a nossa energia. Quando essa intenção está difusa, a agenda tende a se tornar apenas um preenchimento de tarefas. Quando está mais clara, mesmo pequenas ações passam a carregar um sentido diferente.
A segunda dimensão se relaciona ao estado de consciência — à presença com que se vive aquilo que se faz. É possível organizar um dia inteiro no papel e, ainda assim, atravessá-lo de maneira automática, dispersa, sem real envolvimento. Nesse caso, há organização externa, mas não interna. Esse nível mais íntimo parece exigir justamente a capacidade de perceber a si mesmo no decorrer da ação, de estar, de fato, presente.
Por fim, há uma terceira dimensão, talvez a mais exigente: a coerência interna. Trata-se do alinhamento entre aquilo que se reconhece como verdadeiro e aquilo que, efetivamente, se vive. Quando esse vínculo se fragiliza, a agenda se transforma em uma lista de intenções não cumpridas. Quando se fortalece, mesmo ações pequenas passam a consolidar algo mais estável — uma espécie de confiança silenciosa que se constrói ao longo do tempo.
E talvez a pergunta que fica — mais do que como conclusão, como provocação — seja simples, ainda que desconfortável: se hoje fosse o último dia, haveria coerência entre a forma como vivi e aquilo que, de alguma maneira, reconheço como essencial?
Não como espaço para arrependimento, mas como ponto de consciência.
Porque, a partir dele, qualquer mudança possível já começa a acontecer.
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