Não precisa me fazer perguntas que você mesmo pode responder.

É curioso como, de tempos em tempos, retorno ao papel para me questionar sobre o porquê dessa vontade de escrever — como se, ao fazê-lo, eu tentasse não apenas encontrar uma resposta, mas também adiar o contato com aquilo que, no fundo, já sei que está ali. Uma ideia que me ocorre é a de que talvez eu esteja escrevendo justamente para evitar entrar em contato com todas as responsabilidades e cobranças que venho fazendo a mim mesmo nesses últimos três meses em que estou desempregado; mas, ao sustentar esse pensamento por alguns instantes, percebo que ele se desfaz quase por contradição, porque escrever não me afasta disso — ao contrário, aproxima-me, obriga-me a olhar com mais nitidez para meus próprios pensamentos, comportamentos, dúvidas, sentimentos e para tudo aquilo que, no cotidiano, consigo manter apenas parcialmente visível.


Não precisa me fazer perguntas que você mesmo pode responder.

Не надо мне задавать вопросы, на которые ты сам можешь ответить.

“Não precisa me fazer perguntas que você mesmo pode responder.”

Nesses dias, ao pedir ajuda a um amigo voluntário do CVV para tentar compreender como eu poderia lidar com a situação de um conhecido — um jovem de 17 anos, com TDAH e inclinações depressivas, atravessando o luto pela separação de seu primeiro relacionamento amoroso —, ouvi dele algo que permanece reverberando em mim com uma insistência difícil de ignorar. Ele me disse que, não raramente, pessoas que recorrem a bebidas e drogas como forma de lidar com processos de luto ou com situações adversas e emocionalmente extenuantes do dia a dia o fazem porque, em algum nível — ainda que difuso, ainda que não plenamente consciente —, reconhecem que há algo nelas que pede cuidado, algo que se apresenta como incômodo, como falha, como desajuste e que, por isso mesmo, parece exigir algum tipo de intervenção. Nesse sentido, as substâncias oferecem uma espécie de alento imediato, quase como uma promessa de suspensão temporária desse desconforto — promessa que, à primeira vista, parece suficiente ou, talvez, necessária.

Se “há algo de errado em mim que precisa ser sanado” e se determinadas substâncias têm a capacidade de atenuar — ainda que momentaneamente — a percepção desse incômodo, então o uso passa a se apresentar não apenas como uma possibilidade, mas como uma espécie de solução funcional, ainda que precária. O problema é que essa lógica, embora coerente em sua formulação inicial, revela-se progressivamente insustentável na experiência: o alívio não se mantém, o mal-estar retorna — por vezes com maior intensidade —, e aquilo que antes se apresentava como recurso passa, pouco a pouco, a assumir contornos de dependência. A partir daí, instala-se um movimento de retração: a pessoa se afasta, seja pelo peso do julgamento social, seja pelas restrições normativas que cercam o uso de álcool e outras drogas, seja, ainda, por uma forma mais silenciosa de autoisolamento. E, nesse afastamento, emerge uma nova camada de exigência interna — a ideia de que é preciso “se tratar”, “se corrigir”, “se ajustar” — que nem sempre encontra meios reais de se concretizar.

Quando essa tentativa falha — e muitas vezes falha —, o que se inicia é um deslocamento ainda mais severo: o olhar deixa de ser dirigido ao problema e passa a se voltar contra o próprio sujeito. Surge, então, o desgaste da autoimagem, a diminuição de si, a erosão gradual de qualquer perspectiva de futuro que não esteja atravessada por um sentimento de insuficiência. O resultado disso não é apenas o sofrimento em si, mas uma espécie de estagnação psíquica, silenciosa e persistente, característica de quem já não consegue vislumbrar possibilidades que escapem ao próprio ciclo de frustração. Até mesmo o simples ato de sonhar passa a doer... porque ali já se projeta uma nova decepção.

Do ponto de vista químico, esse processo encontra ainda um reforço adicional: após os picos de euforia induzidos por substâncias, os sistemas neurobiológicos responsáveis pela regulação de prazer, bem-estar e motivação tendem a sofrer desajustes, o que contribui para o surgimento — ou a intensificação — de estados depressivos. Ou seja, aquilo que inicialmente se apresenta como alívio passa, com o tempo, a alimentar o próprio problema que pretendia mitigar.

Diante disso, o que me parece cada vez mais evidente é que, quanto mais evitamos nos expor à dor — ou quanto mais recorremos a elementos externos para amortecê-la —, mais difícil se torna, de fato, atravessá-la. Há algo de profundamente coerente, nesse sentido, na máxima budista de que “toda dor vem do desejo de não sentir dor”, não como uma frase de efeito, mas como a descrição de um mecanismo recorrente da experiência humana. É nesse ponto que a escrita retorna: escrevo, então, como uma forma de não desviar, como uma tentativa de sustentar o contato com aquilo que incomoda, de tornar a dor inteligível, nomeável, talvez até suportável — mas, sobretudo, consciente. Ou, ao menos, é essa a intenção que atribuo a esse gesto.

Ainda assim, essa intenção não se sustenta de maneira contínua. Há momentos em que falho — ou, talvez, em que simplesmente cedo — e passo a recorrer a elementos externos para organizar, validar ou até mesmo substituir meus próprios pensamentos. Um traço, possivelmente, dos tempos atuais. A inteligência artificial, nesse contexto, apresenta-se como uma ferramenta ambígua: pode funcionar como apoio, como extensão, como interlocução; mas também pode, quando utilizada de maneira pouco crítica, interferir na estrutura do pensamento, suavizar tensões que deveriam ser mantidas ou até deslocar o eixo argumentativo sem que isso seja imediatamente percebido.

Recentemente, ao tentar escrever uma crítica sobre o conflito mais recente no Oriente Médio — entre Estados Unidos, Israel, Líbano e Irã —, posicionando-me de forma contrária a determinadas ações de um grupo específico, recorri ao ChatGPT para uma revisão semântica. Qual não foi minha surpresa quando, ao reler o texto, percebi que algo havia sido alterado não apenas na forma, mas na própria direção do argumento. A justificativa apresentada pela IA foi a de que meu posicionamento poderia ser interpretado como xenófobo — o que, por si só, já introduz uma camada adicional de complexidade à questão. A intenção dessa revisão, ao propor diminuir o peso ou tornar meu discurso mais palatável ou politicamente correto, trouxe-me uma série de questionamentos; talvez, porém, este não seja o momento apropriado para dividi-los com vocês. Retomo, então, aqueles que mais importam.

Permaneço com uma dúvida que não se resolve com facilidade: em que medida a crítica a ações — como invasões territoriais ou violações de soberania — pode ser confundida com preconceito? E, em contrapartida, até que ponto eu mesmo não estaria operando a partir de uma lente enviesada, sem reconhecê-la como tal? Talvez a questão não esteja apenas no que é dito, mas no lugar a partir do qual se fala — e, sobretudo, na disposição de sustentar esse incômodo sem recorrer imediatamente a respostas que o encerrem.

Nem sempre os questionamentos são produtivos, mas, para mim, é importante fazê-los como exercício do senso crítico — uma habilidade que a IA ainda não possui. A inteligência artificial é capaz de somar ideias e de concatená-las em uma ordem perfeitamente lógica, mas ainda é incapaz de perceber as intenções que vêm por detrás do discurso e, a partir daí, antecipar seus desdobramentos. Nem tudo que organiza o pensamento, necessariamente, o preserva.

Se já sabemos, em algum nível, as respostas para muitas das perguntas que fazemos, então talvez o problema não esteja exatamente na falta de clareza, mas na dificuldade de sustentar aquilo que vemos quando, de fato, olhamos. Há um intervalo incômodo entre saber e agir — e é nele que, muitas vezes, nos perdemos.

Talvez seja justamente por isso que contornamos tanto a dor. Porque atravessá-la implica abrir mão de certas narrativas, de certos confortos, de certas versões de nós mesmos que ainda insistimos em preservar. E, ainda assim, quanto mais evitamos esse contato, mais ele se impõe — por outras formas, por outros caminhos, quase sempre mais difíceis.

No fim, não me parece que seja a certeza que sustenta o movimento, mas algo mais silencioso e, ao mesmo tempo, mais exigente: uma espécie de disposição interna para seguir mesmo sem garantias, para agir mesmo sem pleno domínio, para escolher — de maneira consciente ou não — aquilo em que se acredita.

E talvez seja isso. Não uma resposta definitiva, mas um ponto de apoio provisório. Porque, se há algo que já posso responder por mim mesmo, então a questão deixa de ser “o que fazer?” e passa a ser se estou, de fato, disposto a sustentar a resposta que já reconheço como minha.

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