O que a vida vem pedindo de mim? (parte 2)

Retorno ao papel para falar, agora, dos meus próprios ritmos — dos ciclos que me atravessam de forma mais íntima. Escrevo para registrar algo que reconheci ontem, durante uma sessão de terapia: o tempo… o simples passar do tempo tem me causado ansiedade. E me pergunto, com certa inquietação, se estou, de fato, sabendo lidar com ele.


O tempo é um recurso escasso, finito — e, ainda assim, por vezes me percebo paralisado, envolto em meus próprios pensamentos, como se o atravessasse sem plena consciência. Como se, em vez de habitá-lo, eu apenas o deixasse passar.

Mas o tempo também é um presente. E talvez eu precise me apropriar dele com o máximo de consciência e vontade que me for possível sustentar.

Enquanto estou desempregado, tenho enviado currículos, participado de entrevistas, estudado sobre organização, escrito — tudo como uma tentativa de me manter atento ao que sinto e de ordenar o que se passa em mim.

Percebo que a escrita é apenas uma entre várias formas de sustentar alguma ordem interna. Ela organiza o pensamento — dá contorno, luz e certa objetividade ao que antes era difuso —, mas também exige. Há um desgaste.

Talvez por isso seja necessário interromper, às vezes. Fazer pausas.

Escrever é como uma faxina mental: ao final, tudo parece mais limpo, mais habitável, quase convidativo. Mas quem realiza essa limpeza, inevitavelmente, sai dali um pouco exausto. Portanto, é preciso descansar.

O mais curioso é que esse descanso mental pode surgir justamente em outra atividade que também exige esforço — mas de uma natureza diferente: a musculação.

Durante a prática de exercícios físicos, noto que meu cérebro, geralmente agitado, se aquieta ao se concentrar apenas nos movimentos e na força exigida em cada repetição. É como se, depois de ordenar a mente pela escrita — ainda que reste algum ruído —, eu pudesse permitir que ela se silencie de outra forma.

Uma ordenação menos racional, talvez. Mais sensorial.

Difícil de explicar com precisão — mas profundamente perceptível.

E é curioso observar como me sinto diante dessas práticas. Antes de iniciá-las, há inquietação: penso demais, ensaio, hesito, me ajusto. Mas, uma vez em movimento, a ansiedade se dissolve — e, por algum tempo, não preciso de nada além da própria experiência.

Talvez a conclusão, ainda provisória, seja simples: preciso de atividade — e também de descanso. Mas não de qualquer descanso — e sim daquele que corresponde ao tipo de esforço realizado.

Há, nisso, uma espécie de equilíbrio a ser aprendido.

E, no fundo, começo a entender que a disciplina não é uma imposição rígida, mas uma forma de cuidado. Porque é ela que me permite organizar meus recursos com mais clareza — o tempo, a energia, as habilidades, os afetos.

Talvez seja por isso que se diga que a disciplina é mãe da liberdade.

Porque, quando ela está presente, já não me sinto à deriva,
mas, pouco a pouco, capaz de conduzir.

E é nesse ponto que uma outra questão se impõe, de forma mais concreta: não apenas a necessidade de agir, mas a natureza dessa ação. Porque não posso me afastar da responsabilidade de cuidar de mim e do meu filho — de sustentar, com presença e lucidez, aquilo que garante a ambos segurança, saúde, educação e também estabilidade financeira.

Talvez seja aqui que tudo se encontra: o tempo, o cuidado, a disciplina e a escolha. Não mais como ideias separadas, mas como partes de um mesmo compromisso silencioso com a vida que me foi confiada.

Pouco antes da sessão de terapia de ontem, uma lembrança me atravessou.

Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, quando trabalhava na Raidho — uma operadora especializada em viagens internacionais, cujo principal destino era a Índia — vivi um período que, de certa forma, ecoa o momento atual. Com o lockdown de cidades e destinos que costumávamos vender, e a impossibilidade de oferecer nossos serviços em lugares que já não recebiam turistas ou eram considerados de risco, tudo precisou ser reconfigurado.

Veio o trabalho remoto.
Veio a redução da jornada — e, com ela, a redução do salário pela metade.

E, junto de tudo isso, veio também um outro tipo de confronto: com o tempo, com o silêncio, com aquilo que permanece quando o ritmo externo desacelera.

Talvez não seja a primeira vez que a vida me coloca diante desse tipo de pausa forçada.

E talvez, justamente por isso, haja aqui não apenas uma interrupção,
mas uma possibilidade de aprendizado que insiste em se repetir
até que, de fato, eu a compreenda.

Em meio a tantas dificuldades que marcaram aquele período, encontrei também formas de cuidado. Estudei inglês e Excel avançado, participei de conferências e seminários online com operadores receptivos de diversos países, meditei, caminhei com a Pretinha, escutei podcasts, pratiquei musculação, corrida e natação. Busquei alternativas para continuar vendendo — destinos como Maldivas, Nova Zelândia, Austrália, Indonésia e Guatemala, por suas características geográficas mais isoladas, demoraram um pouco mais a sentir os efeitos da pandemia.

Lembro-me também de momentos mais simples: jogar cartas à noite, ler alguns livros de desenvolvimento pessoal, assistir às lives de artistas no YouTube.

Havia, ali, um certo equilíbrio possível.

E eu o reconheci — e, dentro do que era viável, o vivi.

Hoje, ao olhar para o presente, percebo que a ansiedade que me atravessa não nasce apenas da ausência de trabalho, mas também da forma como as rupturas mais recentes aconteceram: tensões, conflitos, mudanças profundas na vida pessoal.

Talvez seja isso que torna este momento diferente.

E, ao mesmo tempo, talvez seja exatamente isso que me convide — mais uma vez — a aprender a sustentar o tempo, em vez de apenas atravessá-lo.

O fato é que já passei por algo relativamente semelhante ao que vivo hoje. Não sei se posso chamá-lo de “momento de crise”. Apesar das preocupações, estou em movimento novamente — como se já conhecesse a direção.

Talvez agora seja menos sobre descobrir o caminho
e mais sobre sustentá-lo.

Manter o foco. A disciplina. A presença.

Sem recorrer a excessos ou fugas, mas também sem dureza desnecessária.

Preciso de uma rotina clara, possível — e, pouco a pouco, tenho voltado a construí-la.

Talvez seja isso que a vida esteja me pedindo agora:
que eu não me esqueça.

Que eu me recorde das minhas capacidades,
e daquilo que já fui capaz de sustentar.

Que eu confie — não como uma crença ingênua,
mas como quem já atravessou antes —

que, apesar de tudo,
no fim,
as coisas encontram um modo de se reorganizar.

E, mais uma vez,
dar certo.

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