Quem eu quero ser diante do outro que me faz mal (ou quem eu quero ser amanhã)?
Como não ter sentimentos ruins por pessoas que
fazem de tudo para crescer — até mesmo prejudicando e mentindo para os outros?
A Thays me fez essa pergunta hoje.
E eu não soube responder na hora.
Não porque não tivesse o que dizer —
mas porque tem coisa que a gente precisa sentir
antes de organizar em palavra.
Talvez essa seja uma delas.
Porque, sendo honesto…
eu não acho que dá para evitar sentir.
Sentir é automático.
É como o corpo reagindo sem pedir permissão.
Se uma abelha pica, dói.
Não tem argumento que impeça isso.
E tudo bem.
Sentir raiva, indignação, até um certo desprezo…
às vezes só mostra que você ainda reconhece quando
algo não está certo.
O problema não é o que você sente.
É o que você faz com isso depois.
Porque existe um ponto — sutil, quase invisível —
em que você deixa de apenas sentir…
e começa a carregar.
Carrega a situação.
Carrega a pessoa.
Carrega conversas que nunca aconteceram, respostas
que ficaram presas, cenas que a mente repete como se ainda houvesse algo a
resolver.
E, quando você percebe, já não está mais fora.
Está dentro.
E talvez seja aí que a pergunta muda.
Não é mais sobre “como não sentir”.
É sobre não deixar isso morar em você.
Porque, sim — tem gente que cresce passando por cima.
Que distorce.
Que fere caminhos que não precisariam ser feridos.
E é natural que algo em você reaja.
Mas nem toda reação precisa virar permanência.
Nem tudo que te atravessa
precisa ficar.
Talvez o exercício seja outro.
Ver… sem absorver.
Entender… sem justificar.
Perceber… sem se contaminar.
Porque, no fundo, o comportamento do outro quase sempre fala das faltas dele — não das suas.
Falta de segurança.
Falta de consciência.
Falta de medida.
Isso não torna certo.
Mas muda o peso.
Tira você do centro de algo que nem sempre foi sobre você.
E, aos poucos, você aprende uma coisa importante:
existe diferença entre reconhecer o erro
e se apegar a ele.
Existe uma diferença importante entre justiça e apego.
Eu posso reconhecer o que está errado.
Posso me posicionar.
Posso criar limites.
Sem precisar carregar ódio — porque, no fim, isso não atinge o outro. Fica em mim.
E cuidar disso também é minha responsabilidade.
Então eu aprendo, aos poucos, a me proteger.
A me expor menos.
A manter distância quando necessário.
A ser claro — sem me tornar reativo.
Não por frieza.
Mas por maturidade.
Porque, no fundo, tudo volta para a mesma pergunta:
quem eu escolho ser diante disso?
O mundo não vai deixar de ter caminhos tortos.
Mas eu não preciso seguir por eles.
Talvez seja mais simples do que parece:
eu vejo.
eu não concordo.
eu não levo comigo.
Porque o outro pode agir a partir de faltas —
mas o que eu faço com isso é escolha minha.
E, às vezes, maturidade é só isso:
ver com clareza…
e não carregar.
Porque até o ódio é um vínculo.
E eu não preciso me prender ao que não escolho
ser.
No fim, nunca foi só sobre o outro.
É sobre quem eu me torno
diante do que eu vejo.
Comentários
Postar um comentário