Ruído, voz e direção.
Hoje acordei relembrando uma conversa que tive ontem com o André, meu professor de filosofia na Nova Acrópole. Eu havia chegado um pouco mais cedo à escola e estava refletindo, depois da sessão de terapia, sobre como o processo de escrita tem repercutido em mim — um processo que exige bastante esforço do ponto de vista mental, mas que também me ajuda na elaboração das ideias, funcionando como uma espécie de “higiene” interna e, mais do que isso, como a realização de um sonho que tenho desde menino. O ato de escrever, para mim, significa justamente tirar um sonho do papel.
Como aspirante a filósofo, tenho em mim um desejo sincero de integrar minha vida a um ideal. Desejo que meus sonhos, pensamentos, ideias, discursos e ações estejam integrados e em uníssono, e que haja congruência entre eles.
Assim, escrever para o meu blog (ou diário) — que ainda permanece oculto à maioria das pessoas, já que está em fase de maturação no meu “caldeirão”, onde as ideias fervilham como uma espécie de gororoba que espero que futuramente se torne nutritiva tanto para mim quanto para quem tiver coragem de prová-la — tem sido um ato consciente e um esforço contínuo para atingir esse ideal. Manter-me fiel a essa vontade é uma provação. Exige disciplina, rotina, propósito e paciência para sustentar o processo.
Um pouco antes dessa conversa, a terapeuta havia me perguntado se escrever tem sido prazeroso e, em verdade, confesso: nem sempre. Ela me confrontou ao lembrar que eu mesmo venho dizendo que, depois de escrever, preciso ir à academia para fazer outro tipo de movimento — o de silenciar as vozes que ficam reverberando após o esforço cognitivo. É curioso notar isso: a necessidade de um esforço físico após o esforço mental. Mas, verdade verdadeira? Eu nem precisaria disso. Porque admito que gosto de conversar comigo mesmo.
Seria tão problemático assim reconhecer isso? A gente tem medo de admitir certas coisas para si mesmo, não é? Por exemplo, me ocorre agora que, na verdade, tenho recorrido à musculação pelo simples fato de gostar de treinar, de ficar forte, saudável, bonito… Qual é o problema de ser vaidoso? Não tenho gastado rios de dinheiro com isso; faço academia em casa e estou ficando orgulhoso de quem tenho me tornado. Meu corpo, meus pensamentos e minhas ações estão dando sinais de um processo de alinhamento.
E, se procuro um problema em tudo isso — e se continuo me questionando qual ele seria —, um sussurro mental sugere: o problema é que eu continuo pensando demais em mim mesmo. Trata-se de uma voz externa à minha, nem sei exatamente de quem: “quando a vida da gente está alinhada da forma como me proponho — com meus sonhos, pensamentos, ideias, discursos e ações em harmonia — não sobra tempo para pensar somente na gente. A gente começa a pensar nos outros.”
Percebe onde está a culpa? E, pra falar a verdade, essa culpa também vem da sugestão incômoda presente em outra voz: a da Silvia, minha ex-sogra. Ela costumava dizer que eu só pensava no meu próprio umbigo. Mas será que essa sugestão ainda faz sentido? Quantas críticas externas tenho introjetadas dentro de mim? A fala da Silvia parece ter criado um “observador interno” que reaparece quando tento me compreender. Curiosamente, me sinto culpado mesmo sem ter cometido nada moralmente reprovável.
Há quem diga que, quando uma pessoa critica demais outra, isso pode revelar um baixo nível de autoconsciência, porque aquilo que incomoda no outro pode ser o reconhecimento de algo que também existe em si — como o encontro de dois ímãs com polos equivalentes: eles se repelem.
Dito isso, faz sentido afirmar que a Sílvia
demonstrava um baixo grau de consciência, mas, mais importante do que isso — e
aqui está o que verdadeiramente importa —, devo agradecer a ela por me ter
trazido à luz a necessidade de observar melhor as pessoas que me cercam. Todo
ser humano nasce com a possibilidade de desempenhar um papel no mundo. Eu estou
buscando o meu papel, o meu sonho e a minha voz.
E se continuo murmurando e criticando a Sílvia em pensamentos, a lógica também se aplica a mim: preciso desenvolver melhor a minha autoconsciência. E o ato de escrever deve ajudar, espero. Entre tantas idas e vindas, reconheço que estou à procura da minha própria identidade, pois consigo me reconhecer a partir da minha contribuição e das ações que realizo na sociedade.
Quando acordei hoje, vi algumas fotos no celular em que eu aparecia inserido em grupos distintos de pessoas e em diferentes momentos. Seja na comemoração do aniversário da Nova Acrópole — que acontecerá no dia 24 (ou 25?), mas cuja celebração fizemos ontem —; ou no aniversário da Fernanda, que festejamos no sábado à noite com um grupo de integrantes mais experientes da Nova Acrópole da unidade da Nove de Julho, incluindo meu amigo Rafael; ou ainda no grupo guiado pela manhã durante o passeio que fizemos pelo centro de São Paulo, registrado no Pátio do Colégio — lá estava eu. Cercado de pessoas. Feliz.
Será que tenho contribuído de forma significativa para preservar esses grupos que têm me acolhido tão bem?
Não faz muito tempo, por pânico e desespero, minha vida estava sendo marcada por excessos e, se hoje está mais equilibrada, isso se deve muito à minha própria vontade, mas também à ajuda e ao carinho que recebi de tantas pessoas que, às vezes, nem sabem o quanto contribuíram. E talvez algumas dessas pessoas saibam. Provavelmente sabem.
O fato é que tenho cobrado de mim essa devolutiva,
essa contribuição. Meu karma tem sido esse.
Apesar da presença e participação de tantas vozes, sigo à procura da minha própria voz — do meu estilo e presença. Quando a Cristiane — a terapeuta — me perguntou que voz seria essa ontem, pensei no estilo de escrita. Alguns textos que escrevo são mais digressivos, outros mais ensaísticos, alguns mais literais, e outros ainda parecem apenas registros temporais. Pergunto-me se desejo ser um cronista, um pesquisador, um contador de histórias ficcionais… quem eu quero ser? Essa é a pergunta que não quer calar.
Falando com o André enquanto tomávamos um chá na cozinha antes do início da aula, mostrei a ele um infográfico que fiz com o auxílio do ChatGPT na tentativa de relacionar diversos assuntos e ideias que venho estudando nos últimos meses.
Tentei unir, para ter uma visão mais clara, certos
conceitos do budismo tibetano, do gnosticismo, da psicologia analítica
junguiana, do tempo psicológico e da administração do tempo, da filosofia de
Confúcio, ao esquema de Nous – Psique – Soma, espiritismo… uma miscelânea de
correntes de pensamento. Ficou visualmente interessante, e reconheço o esforço.
Eu estava orgulhoso daquilo, mas o André comentou: “está um pouco confuso isso
aqui, né?”. E acrescentou que valem mais poucas ideias — claras, simples e bem
definidas — que tenham real valor e aplicação no dia a dia. Disse ainda que
aquele mapa refletia o estado mental de excesso de pensamentos que estou
vivendo, sobre o qual eu já havia comentado anteriormente com ele. E se
ofereceu para me ajudar.
Se cabe um comentário, penso que a crítica do André também teve como finalidade baixar um pouco a minha bola. Na minha opinião, o trabalho estava bem feito — com necessidade de uma lapidação e alguns ajustes aqui e ali —, mas era fiel às ideias originais e uma espécie de símbolo que já dizia muito por si mesmo.
Falamos sobre emprego. A justificativa para esse excesso de pensamentos foi o meu momento atual de busca por recolocação profissional. Ele me perguntou se eu já havia enviado meu currículo para ele, e eu nem me lembrava de que ele já havia feito esse convite.
Ele também comentou sobre um conhecido que organiza viagens para diferentes destinos com a proposta de promover uma vivência filosófica no local: conversas sobre pensadores que viveram ali, suas vidas, curiosidades e histórias do destino. E também sobre o próprio destino do viajante, e sobre como aquele espaço dialoga com sua trajetória. Assim, a viagem assumiria uma função mais profunda e significativa, tanto interna quanto externamente.
Ele disse que conversaria com esse amigo para entender se haveria ali um espaço para que eu pudesse contribuir, e fiquei bastante entusiasmado com a ideia de trabalhar nesse lugar. Sendo bastante sincero comigo mesmo, com mais de 10 anos de experiência no turismo, eu sempre amei viajar e planejar viagens para outras pessoas. Eu acredito que a viagem já se inicia no sonho e no planejamento: na pesquisa histórica, geográfica e cultural do lugar, na história e configuração dos espaços de hospedagem, na gastronomia… “viajar é a melhor coisa do mundo porque tudo de melhor que se faz na vida é possível também de se fazer viajando”, como um antigo mestre já me disse, e essa voz ainda ecoa em mim.
Além disso, ele me encorajou a procurar por mim mesmo desempenhar esse papel de organizador de viagens, caso eu acredite possuir os recursos internos necessários para isso. Assim, eu me tornaria menos dependente da validação externa para fazer o que precisa ser feito.
Por fim, durante a aula, ele me lembrou que devo perseguir o arquétipo do herói. Esse é o Arjuna que habita em nós — aquele que deve superar a si mesmo e se autogovernar. E que, para o filósofo, não há mais problemas em sua vida, porque ele passa a enxergar oportunidades e provas em sua caminhada. O filósofo acredita que a vida não é contra ele, mas que, de tempos em tempos, ela o interpela: “hei, tem alguém aí?”
Talvez o ponto mais honesto de tudo isso seja reconhecer que não se trata exatamente de um “excesso de pensamento” como um defeito em si, mas de um pensamento que ainda não encontrou um eixo suficientemente estável para se organizar em direção única. As vozes que aparecem — do André, da terapeuta, da Silvia, da filosofia, da minha própria autoexigência — não são intrusas aleatórias. Elas parecem fragmentos de um mesmo processo: a tentativa de construir dentro de mim um critério mais sólido do que aqueles que eu simplesmente herdei.
Nesse sentido, a culpa que reaparece não me parece ser uma leitura atual e objetiva da minha vida, mas a permanência de uma identidade anterior ainda não totalmente dissolvida. Como se existisse em mim um sistema antigo de avaliação, onde pensar em si mesmo já vinha carregado de suspeita, onde vaidade precisava ser imediatamente justificada, e onde qualquer forma de autoconsciência acabava rapidamente convertida em autocrítica. E talvez o que eu esteja fazendo agora, sem nomear dessa forma o tempo todo, seja justamente testar se esse sistema ainda é verdadeiro ou apenas automático.
E talvez a pergunta que fique não seja “quem eu devo ser”, mas algo mais direto e menos abstrato: quais dessas vozes realmente me ajudam a agir com mais clareza no mundo — e quais apenas repetem julgamentos que já não precisam mais conduzir as minhas escolhas? Porque, no fundo, o que eu começo a perceber não é um caos crescente, mas um movimento de depuração. Não estou acumulando tantas coisas assim; estou tentando separar o que ainda é ruído antigo do que já começa a ser uma direção própria.
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