Viagem a Uberaba: herança, identidade e liberdade em um percurso de integração.
Aqui estou eu de novo. Desta vez, em diálogo com as experiências que vivi neste último feriado prolongado de Tiradentes — aniversário do meu irmão Andrei e uma oportunidade especial para visitar minha vó Tianinha, em Uberaba, Minas Gerais.
Viajar para Uberaba sempre significou, para mim, ir ao encontro do meu pai. Desde que ele faleceu, no dia 1º de maio de 1995 — exatamente um ano após a morte de Ayrton Senna, piloto de quem ele era fã absoluto — passei a atribuir a essas viagens um sentido de busca por uma identidade perdida.
Desde a sua morte, sinto como se uma parte de mim tivesse ido embora com ele. Ao mesmo tempo, me dou conta de que talvez nunca saberei exatamente o que se passou para que ele cometesse o suicídio, nem conhecerei plenamente a história dele — tão intimamente conectada à minha. Nas minhas idas a Uberaba, tenho a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre ele e sobre meus parentes que ainda moram lá.
Durante esta última viagem, muitas coisas aconteceram. Como sempre, experiências intensas e marcantes. E é sobre elas que quero falar.
Assim como sobre a forma como essas vivências estão ecoando em mim agora.
Um dos pensamentos que me ocorrem diz respeito ao fato de que carrego, em meu corpo, células formadas a partir de 50% do DNA da minha mãe e 50% do DNA do meu pai. A partir disso, posso dizer que sou, em alguma medida, a soma de ambos.
O que me diferencia do meu pai e da minha mãe é a minha própria trajetória até aqui e os aprendizados que construí ao longo dela. Ainda assim, me pergunto se a convivência que tive com os dois — somada a essa herança genética — não faz com que eu pense e sinta, em certos aspectos, de forma semelhante a ambos. Por vezes, temo repetir algumas das escolhas que eles fizeram — sobretudo a decisão que meu pai tomou.
Apesar desse medo, acredito que meus pensamentos e sentimentos podem, sim, ser influenciados pelos meus genitores. Mas também me parece que o passar do tempo — e toda a sabedoria que a vida me trouxe, a partir dos meus erros e acertos — faz com que eu seja hoje algo que transcende o legado dos meus pais. Não sou apenas consciência, mas a integração de matéria, desejos, sentimentos, pensamentos, intuição e Vontade. Sou um amálgama — e adoro essa palavra — de tudo isso, uma profusão dessas dimensões.
E viajar para Uberaba me fez perceber isso mais uma vez. Não posso negar partes de mim; ao contrário, devo buscar acolher, de forma amável e gentil, tudo aquilo que me compõe. Ao mesmo tempo, posso — e devo — transformar ou deixar para trás comportamentos, desejos e sentimentos que já não fazem sentido para quem escolho ser.
Enquanto escrevo este texto, algumas recordações me vêm à mente. Uma delas é a de estar no carro, dirigindo pelo sobe e desce dos morros da estrada, com o sol iluminando e aquecendo meu corpo e o caminho à frente. No carro, minha mãe, a Thays e eu. Intimamente, eu agradecia ao meu pai por aquela nova forma de presença e me perguntava: quem é esse pai solar que tanto procuro?
Nas minhas sessões de terapia, nas aulas de filosofia e nas conferências de gnose, a resposta sugerida é a de que estou à procura de mim mesmo. E é claro que essa resposta faz sentido. Quero saber quem eu sou.
Para além dessa busca legítima pela minha identidade, surgem também questionamentos sobre as decisões que tomei — e que precisam ser respondidos com a minha própria voz.
Já em Uberaba, enquanto minha prima Drielle, a Thays e eu íamos tomar um banho daqueles que aliviam a alma, na terceira cachoeira de Peirópolis, ela me fez a pergunta que, no fundo, muita gente quer saber:
— Como é que rolou esse negócio aí da gnose?
Entrei na Gnose a partir de um convite para aulas gratuitas e online no Instagram. Mas, antes disso, houve um certo preparo.
Eu já nutria um interesse pela Maçonaria, em parte por ter estudado no Colégio Comendador Elias Zarzur, que, durante o ginásio, era mantido pela Loja Maçônica Astro da Arábia nº 163. Foi ali que tive meus primeiros contatos com ideais como liberdade, igualdade e fraternidade — princípios que, mais tarde, reconheci também como fundamentos da modernidade, especialmente a partir da Revolução Francesa, ao romper com o Antigo Regime e propor uma nova forma de pensar a sociedade.
Não à toa, esses ideais também ecoaram no Brasil, ainda em 1789, durante o período colonial, na Inconfidência Mineira. Encabeçado por Tiradentes, um grupo formado por membros da elite local — entre eles, alguns ligados à maçonaria — insurgiu-se contra o domínio português. Entre as principais motivações estavam o quinto, imposto de 20% sobre o ouro extraído, e a derrama, mecanismo de cobrança forçada quando a meta anual não era atingida.
Embora o movimento tenha fracassado e Tiradentes tenha sido posteriormente elevado à condição de mártir, sua execução foi brutal: enforcado, teve partes de seu corpo expostas publicamente como forma de repressão e exemplo. Ainda assim, essa história ficou simbolicamente cravada na bandeira do estado de Minas Gerais: uma bandeira branca com um triângulo vermelho (em alusão ao sangue derramado por esse ideal) e os dizeres em latim Libertas quae sera tamen — “Liberdade, ainda que tardia”.
A liberdade pode ser demorada, adiada, sufocada ou reprimida, mas ainda assim vale a pena buscá-la, porque é justa e necessária.
Comecei a estudar no Zarzur no ano seguinte à morte do meu pai, possivelmente por influência do meu tio Gabriel, integrante da maçonaria, e da minha tia Madalena, que ajudaram minha família com carinho e apoio financeiro. Com o suporte dos dois, meu irmão e eu conseguimos uma bolsa de estudos no colégio.
Foi só mais tarde que comecei a perceber que talvez essa sequência de acontecimentos não fosse aleatória.
O meu pai, cuja ausência sempre senti como uma lacuna difícil de nomear, passou a se manifestar em mim de outras formas — menos concretas, mas não menos reais. Como uma espécie de presença silenciosa que, em vez de respostas prontas, me convida a fazer perguntas mais honestas.
Talvez esse “pai solar” que procuro não seja exatamente alguém fora de mim, mas um princípio. Uma referência interna de direção, clareza e consciência — algo que não me determina, mas me orienta.
E, de certo modo, isso dialoga diretamente com tudo aquilo que fui encontrando pelo caminho.
Os ideais de liberdade que conheci ainda jovem, na escola, deixaram de ser apenas conceitos históricos ou políticos e passaram a ganhar um sentido mais íntimo. Já não se trata apenas de romper com estruturas externas, como fizeram aqueles que sonharam com a independência, mas de reconhecer também as estruturas internas que me condicionam — meus medos, padrões e automatismos.
Nesse sentido, a gnose entrou na minha vida não como uma ruptura brusca, mas como uma continuidade — como se, de alguma forma, eu já estivesse sendo preparado para esse encontro.
Porque, no fundo, a pergunta nunca foi apenas “o que é a gnose?”, mas “o que em mim busca esse tipo de conhecimento?”.
E talvez a resposta esteja justamente aí: na necessidade de compreender a mim mesmo com mais profundidade, de assumir responsabilidade pelas minhas escolhas e de exercer, de forma consciente, essa liberdade que antes eu enxergava apenas como um ideal distante.
Hoje, começo a entender que não se trata de negar a minha história — nem a do meu pai —, mas de integrá-la.
De reconhecer que carrego em mim tanto as minhas origens quanto a possibilidade de transformá-las.
E que, se existe uma liberdade a ser conquistada, ela não é apenas aquela que um dia foi adiada, como diz a inscrição mineira, mas aquela que se constrói, pouco a pouco, a partir da lucidez sobre quem eu sou — e sobre quem escolho me tornar.
Voltarei a falar sobre a viagem nas minhas próximas publicações.
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