Como o lo-fi, o divergente e o Star Wars me ensinaram a ser livre e autêntico.

Começo a escrever hoje, ouvindo uma playlist das trilhas sonoras do universo de Star Wars em lo-fi, e preciso te dizer, é uma sensação incrível!

Lembro-me de que a primeira vez em que tive contato com lo-fi music foi na casa do Caio, onde, depois de um baseado, ele parou e me disse: “Você precisa escutar isso, Sérgião. Olha que louco!”. E eu tive de concordar. Era de noite, aquela parada tinha um swing maneiro; tinha o instrumental que permite que a gente sinta o som sem ter de prestar atenção à letra; era envolvente, tinha algo de sexy e de libertador; o poder persuasivo para que eu me entregasse ao som e deixasse meu corpo e as minhas ideias fluirem sem compromisso. E desde então, eu me amarro em ler e escrever ouvindo lo-fi.

Há alguns anos, li a saga Divergente, que, para quem não sabe, é uma série de livros e filmes de ficção científica e aventura, escrita por Veronica Roth, que se passa na Chicago pós-apocalíptica, onde as pessoas são divididas em cinco facções baseadas em suas virtudes. A história acompanha a protagonista Tris, que descobre ser uma divergente, alguém que não se encaixa em nenhuma facção e que é perseguido pelo governo.

Na maior parte do tempo ao ler, escutei músicas no estilo lo-fi. Foi muito bom, porque parecia que tudo se encaixava perfeitamente: a personalidade da garota altruísta, também rebelde e corajosa, tinha tudo a ver com aquele som e me permitiu um tipo de imersão que jamais tinha tido.

E sabe o que a saga Divergente e Star Wars têm em comum?

Assim como inúmeras outras séries interessantes, elas têm personagens nada dicotômicos. Personagens profundos, com muito mais do que preto no branco. Elas têm essa abordagem profunda e contraditória que me interessa demais. Aliás, o que é diferente me interessa. E isso pode ser basicamente tudo. Hahaha!

A primeira trilogia de Star Wars era bem uma soap opera, com personagens bem rasos, caricatos e estereotipados: Luke Skywalker era o branco, bonzinho e inocente; enquanto o Darth Vader e o Darth Sidious eram malvadões, do lado negro da força. E o mais curioso é que essa simplicidade de roteiro foi suficientemente boa para atrair milhares e milhares de pessoas para aquele universo. A trilogia original foi inspirada por diversos gêneros cinematográficos, como o western, o samurai, o faroeste espacial e o épico, misturando elementos de fantasia, aventura e ficção científica. Ela também foi influenciada por mitos e lendas antigas, como a jornada do herói, o conceito de yin e yang e a dualidade entre o bem e o mal. Esses aspectos tornaram a saga de Star Wars uma obra universal e atemporal, que cativou gerações de fãs.

De lá para cá, no entanto, a franquia teve de inovar e se reinventar. Existe hoje uma série de derivados com suas próprias essências e leituras, como as Prequels, Rogue One, as séries Andor, Ahsoka, Mandalorian e até mesmo a controversa trilogia sequela. Enquanto as Prequels, por exemplo, têm um plot repleto de manipulações políticas, tenta explicar como as pessoas podem se corromper quando sentem medo, seja um padawan inocente e prodigioso que restauraria o equilbrio da força ou um jedi experiente, com pouca tolerância para as falhas do Senado, além de excelente espadachim; Andor e Rogue One trazem características dos filmes de guerra que exaltam o lado humano e imperfeito dos seus heróis num tom mais maduro, intimista e crível; ao passo que Ahsoka está baseada no descompromisso, no onírico que sempre permeou a série e no sabor de “Guerra dos Tronos” com batalha naval.

Esses derivados buscam expandir o universo de Star Wars, explorando novos personagens, cenários e conflitos, além de fazer conexões com as obras anteriores.

Eles também refletem as mudanças sociais e culturais que ocorreram desde o lançamento da trilogia original, abordando temas como diversidade, representatividade, identidade e resistência. Esses aspectos tornam a saga de Star Wars uma obra dinâmica e atualizada, que continua a atrair novos fãs. Essa é a sensação que tenho quando escuto uma música que me emociona: a de que tudo se encaixa perfeitamente. É assim que eu me sinto quando penso no estilo lo-fi, na série Divergente e nas histórias de Star Wars com a minha percepção da sociedade e de mim mesmo. Afinal de contas, todos nós somos divergentes e star warszorizados: somos seres multi-facetados e complexos, muito mais profundos do que os rótulos que podem querer nos empurrar e estamos em constante evolução.

É impossível que nos enquadrem em caixinhas e nos armazenem na vala comum do pensamento preconceituoso, porque jamais alguém será capaz de nos conceber inteiramente em pensamento; jamais alguém saberá o que se passa em nosso pensamento ou o que sentimos se não nos expressarmos. Somos divergentes. E ser divergente na sociedade atual significa não se conformar com as normas e expectativas impostas pelo sistema dominante, seja ele político, econômico, social ou cultural. Significa questionar os valores e as verdades estabelecidas, e buscar o seu próprio caminho de liberdade e autenticidade. Significa também reconhecer a diversidade e a pluralidade de outras formas de existir e de se expressar, e respeitar as diferenças que nos enriquecem como seres humanos.

Nesse mesmo sentido, o lo-fi pode ser uma forma de expressão divergente porque ele é um estilo musical que se caracteriza pela simplicidade, originalidade e criatividade, sem se preocupar com os padrões de qualidade e de produção impostos pela indústria fonográfica. O termo vem do inglês low fidelity, que significa baixa fidelidade, e se refere às imperfeições sonoras que são propositalmente incorporadas às gravações, como chiados, ruídos, distorções e efeitos.

O lo-fi é uma forma de resistir ao consumismo, à padronização e à alienação que caracterizam a sociedade atual, e de criar uma atmosfera de relaxamento, introspecção e inspiração para quem escuta. O lo-fi é uma forma de afirmar a sua identidade e o seu gosto musical, sem se deixar influenciar pelas tendências e pelos modismos. O lo-fi ajuda a desenvolver o seu senso crítico, a sua sensibilidade artística e a sua capacidade de inovação. Ele estimula a experimentar novas formas de criar música, usando os recursos que você tem à disposição, sem se limitar pelas regras e pelas convenções. Ele encoraja a expressar os seus sentimentos, as suas ideias e as suas aspirações através da música, sem se importar com o julgamento dos outros. Ele convida a explorar novos universos sonoros, que podem ampliar a sua visão de mundo e de si mesmo.

E Star Wars também é divergente. Por toda essa revolução que ele provocou no cinema e na cultura pop. Por toda essa capacidade de se reinventar e se adaptar aos novos tempos. Por toda essa diversidade de personagens, cenários e conflitos que ele apresenta. Por toda essa força que ele desperta em nós.

 

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