Por que escrever um blog? #Parte 1 de 2.
Bom, turma, vamos lá. Hoje quero contar
um pouquinho sobre como surgiu essa história de criar um blog e por que é que
eu insisto tanto nesse negócio de escrever. Então, vamos lá… de onde eles vêm?
Como dormem? Como se alimentam?
No início dos anos 90, eu era um menino
de seis anos de idade que estava me distanciando cada dia mais das outras
crianças na escolinha. Não me relacionava bem e estava me tornando uma pessoa
violenta. Tudo isso, por causa de um ciúme enorme que eu sentia do meu irmão:
um menino grande para a idade, muito bonito, com cabelos cheios, cacheados e
loiros, de olhos azuis e que atraía todos os olhares e cuidados de quem
estivesse perto da gente. E, pior de tudo: da minha mãe.
Por não receber a mesma atenção dele,
comecei a me sentir indigno de carinho e de afeto de quem quer que fosse e,
portanto, meus pais, incentivados pelas tias da escolinha, resolveram que
estava na hora de eu fazer terapia.
A minha terapia – se é que eu posso
chamá-la assim – foi algo maravilhoso e extremamente simples. Consistia em uma
hora de brincadeiras intensas com a tia Suzy, a psicóloga, que me oferecia um
baú repleto de brinquedos e tudo o que eu mais precisava naquele momento, que
era um pouco de atenção e colo. Eu adorava os bichinhos da floresta: o tigre, o
cervo, o leão, o cavalo… e esses eram os primeiros que eu tirava daquele baú
repleto de alegrias, sonhos, histórias e magia.
Não obstante, na mesma época em que eu
lidava com essas questões, começava a ser alfabetizado. Tive dificuldades em
aprender a ler e escrever devido a um diagnóstico tardio de miopia e
astigmatismo, e por isso, passei por algumas aulas de reforço, e tive meu
primeiro contato com os livros da Ruth Rocha: “Mico Maneco” e “Reizinho
Mandão”.
Ao mesmo passo em que eu ia me
familiarizando com o universo das letras, eu também costumava assistir aos
desenhos que passavam na TV Cultura. E uma das animações que eu mais gostava
era a do Doug, um garoto sonhador e tímido que compartilhava com seu cachorro
Costelinha e o seu querido diário as suas aventuras.
Aos poucos e passado algum tempo, desenvolvi o amor pela leitura e pela escrita, e pedi para meus pais que me dessem um diário também, no meu aniversário, porque, muito provavelmente – ainda tenho dúvida se não inventei isso –, a tia Suzy tinha me incentivado a me expressar mais. Então, convidei meus melhores amigos para escreverem comigo naquele diário e assinarem com canetinhas coloridas os seus nomes ali.
Quando fiz nove anos, ganhei meu primeiro computador: um 286 que sequer tinha Windows. O sistema operacional dele era o DOS e eu comecei a usar o Edit para escrever o que viria a se tornar um livro.
Baseado
em Carmen Sandiego, a ladra mais famosa dos videogames e cujo jogo eu jogava
naquele computador; na série de livros da coleção “Salve-se quem Puder”; e nos
desenhos de Jonny Quest, meu amigo Caio e eu escrevemos a história de alguns
amigos que viajavam o mundo resolvendo enigmas tecidos por um terrorista até
que o malvado caísse da torre de um holofote num estádio estadunidense durante
a final do super bowl num dia de chuva, quando ameaçava explodir todos
os presentes naquele lugar. 😊
Se
na infância eu houvera sido o responsável por convidar o Caio para escrever
comigo aquela história, na adolescência foi a vez do Caio me convidar para
escrever um blog com ele. E devo confessar que sempre adorei a forma com que o
Caio escrevia. Meu amigo tinha um sarcasmo e um senso de humor ímpares, e
começamos a escrever nosso primeiro blog.
O
“Eita!” era um canal que nos permitia falar das nossas vidas, desejos,
expectativas e desastres amorosos, sempre com bom humor. Era muito bacana
porque nas datas especiais e comemorativas, tais como no natal, na páscoa, no
dia das crianças, no dos namorados etc, nosso “mascote” que era um Obelix,
gordão, sentado de saco de fora ganhava uma nova roupagem sazonal, assim como
todo o site. O Caio e as irmãs dele sempre curtiram navegar na internet e fuçar
nas coisas de html, xml e tal, que eram as tecnologias de ponta da web naquele
momento. Outros garotos se juntaram à nossa dupla, igualmente: o Mário, o Luiz,
o Rafael Hideto, o Daniel, a Carol e a Aline; e nos tornamos bons amigos.
O
Eita! sobreviveu a alguns anos, mas acabou sofrendo com o término dos serviços
do Weblogger em 2012, quando eu tinha 17 anos. No final de 2012, eu comecei a
trabalhar na TeleTech e logo comecei a prestar suporte técnico para os usuários
de internet a cabo e a ter mais tempo em frente à tela para pensar no que
queria e um tanto de ociosidade que me permitiram mergulhar num outro blog, chamado
CallBox.
Fazendo
alusão às caixas, geralmente de metal, que contêm um telefone ou outro
dispositivo de telecomunicações de uso específico, que eram utilizadas por
indústrias ou instituições como uma forma dos funcionários ou clientes em um
local remoto entrarem em contato com um escritório central de despacho, eu
decidi que esse blog seria um pouco mais sério do que o Eita! e, nele, eu me
permitiria escrever mais sobre as minhas emoções propriamente ditas e trocar
ideias com pessoas que eu não conhecia até aquele momento. A maioria do público
do Eita! eram amigos em comum que o Caio e eu tínhamos e que frequentavam quase
sempre o Colégio Zarzur, o Clube Atlético Indiano e as ruas em que morávamos.
Algo
muito legal que sempre achei em se ter esses primeiros blogs é que eles serviam
de instrumento para conversar e me conectar com outras pessoas. No weblogger,
por exemplo, havia uma lista dos blogs mais acessados no dia e, para angariar
público, eu costumava acessar esses outros sites e a comentar os posts dos meus
“concorrentes”. O mais interessante era que, depois que comecei a fazer isso,
pude notar que uma rede de apoio se construía. Os blogueiros liam, comentavam e
criavam uma rotina de troca de experiências.
No
Callbox, eu comecei a inserir links de acesso para blogs cujas postagens eu
curtia e, não raro, recebia a recíproca de volta. Meu segundo blog até chegou a
ser um dos top 10, embora eu
não gostasse muito do meu próprio estilo de escrita. Gostava bastante do da
Katy e de um professor de inglês cujo nome não me lembro agora – com ambos,
troquei muitas ideias e aprendi bastante.
E a despeito das alegrias também tive
algumas dores de cabeça. O site me
rendeu situações desgastantes, como numa vez em que postei sobre um colega
gay que estava a fim de mim. Eu, sendo hétero cis, não tinha interesse por ele,
mas éramos bons amigos e acabei publicando as minhas suspeitas sobre a
intenção dele. Ainda que eu não
tivesse divulgado meu blog entre o pessoal que trabalhava com a gente, ele descobriu
e veio tirar satisfação comigo, alegando que eu o tinha exposto e que eu não
tinha direito de fazer aquilo.
Depois da discussão, nunca mais
voltamos a conversar como fazíamos. E noutra vez, em que a garota que eu estava a fim, depois de ter lido tantas e
tantas das minhas postagens sobre o que eu sentia por ela resolveu me dar uma chance por um final de
semana, para que, na semana
seguinte, decidir que voltaria com o seu namorado. 😭
Entre 2004 e 2010, com o meu ingresso na
faculdade, muito trabalho, casamento e separação, não escrevi mais nada e só
voltaria a escrever em 2011, quando voltei novamente a fazer terapia. Dessa
vez, o blog se chamaria “Meo Ego” e, nele, meu objetivo era expressar – colocar
no “papel” os meus pensamentos desconexos, no intuito de lhes dar algum sentido
para todas aquelas vozes que ecoavam de forma desgovernada nos meus
pensamentos.
O meu desejo naquele blog era o mesmo
que eu tenho hoje com o “Alto e com Coragem”: expressar a minha identidade, os
meus sentimentos, as minhas opiniões e as minhas experiências de forma
autêntica e criativa. A escolha da palavra “ego” indicava que eu já tinha certa
autoestima, um senso de individualidade e uma confiança na minha capacidade de
me comunicar com o mundo, pois o uso da grafia “meo” em vez de “meu” sugeria
que eu buscava me diferenciar dos demais, mostrando a originalidade e o meu
estilo próprio.
No entanto, textos sem sentido; muitas
cópias de livros que eu reproduzia para que outras pessoas também tivessem
acesso àqueles conteúdos; publicações pouco inspiradoras, mornas e rasas, sem
alma, eram o que mais preenchiam as linhas daquelas páginas. Isso tudo passou a
me incomodar e acabei por abandonar aquela investida.
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