Gente como a gente?

 A ideia aqui é colocar os pensamentos soltos em uma linha de raciocínio coerente: com início, meio e fim. Tantas ideias soltas ressoam demais dentro da cabeça e não têm lá grande serventia, é verdade. Se você começou a ler achando que seria entretido ou que descobriria a cura para as mazelas da sua alma, sinto dizer que você se enganou, minha cara ou meu caro leitor. Sou apenas um falastrão querendo encontrar um sentido pra tudo isso; tentando entender o que se passa comigo. Egoico, narcísico, humano...

Hoje eu gostaria de falar sobre diversidade e preconceito, porque fui diagnosticado com transtorno de ansiedade. Por isso, tomo meus remédios, faço terapia.

E não é como se o tempo todo eu estivesse preocupado, com dor de cabeça ou estivesse arrancando meus fios de cabelo para mastigá-los e talvez vomitar uma bola de pelos como os gatos fazem. Não, não é isso.

Em geral, na maioria do tempo, estou tenso, matutando coisas que não me servem, lembrando-me de coisas do passado ou preocupado com o futuro. De vez em quando, lembro-me de que preciso controlar esses pensamentos e tenho que tratar a mim mesmo como se lidasse com uma criança. Quase sempre a gente trata os pequenos com empatia, com carinho e os encoraja a enfrentar os desafios com muita naturalidade e leveza.

Sou uma pessoa ansiosa, mas não é isso que me define. Além de alguém ansioso, tenho diversos hábitos e gostos; sou um cara marcado pelo convívio com muitas pessoas queridas e outras nem tanto; tenho uma linda história de vida que pretendo compartilhar contigo na medida do possível; sou branco; loiro; de tamanho médio; da classe média. Sou um privilegiado. Junte um balde de características e você terá a mim quase por inteiro, mas este ainda não serei eu por completo.

A esta imagem pré-concebida você pode dar o nome de preconceito. Todo mundo tem uma série de preconceitos. O preconceito em si não gera problemas, mas as escolhas que a gente faz a partir de uma falsa crença sim.

O problema é que quando a gente começa a atribuir adjetivos para qualificar as pessoas, meio que a gente tenta colocar todas as diferenças entre elas e a gente numa caixinha. É como se a gente tentasse eliminar essas diferenças. A gente tenta, conscientemente ou não, excluir as diferenças e, portanto, o outro.  Já reparou nisso?

Ele é ansioso - pode-se dizer. Ora, eu não sou apenas uma pessoa ansiosa, já disse! E quem é apenas uma única coisa? Todos nós somos um monte de incontáveis coisas, possuímos diversas facetas ainda que sejamos cada qual um único ser humano.

Ainda me lembro de que quando trabalhava numa agência de viagens que tinha por público-alvo mulheres da terceira idade com bastante dinheiro, eu costumava começar meus e-mails para estes clientes da seguinte maneira: “Estimada Sra. Fulana, bom dia! Antes de tudo, gostaria de agradecê-la pela educação e cortesia demonstradas no trato comigo em sua visita ao nosso escritório (ou no bate-papo que tivemos há pouco por telefone). Como prometi, elaborei com bastante carinho e envio-lhe anexa nossa proposta para a sua viagem. Lembro que esta sugestão ainda poderá ser revisada na medida das suas expectativas e necessidades...”. E aí tentava usar uma forma polida e distinta para tratá-los, pois apostava que agradaria a maioria.

Em paralelo, de um jeito totalmente diferente lidava com meus amigos: “E aí, cara, como é que você tá? Tudo bem contigo? Me conta o que tá rolando, quais são as boas. Como é que tá sua mãe, seu irmão? Você tá precisando de alguma ajuda? Vamos tomar uma hoje?”. Também tentava ser atencioso, respondendo a cada tema das nossas conversas com o melhor de mim. Mas tenho certeza de que eu estava sendo alguém muito diferente do que era para minhas queridas velhinhas.

Com efeito, suponho que “minhas queridas velhinhas” nunca souberam que eu as tratava desse jeito quando falava sobre elas com meus amigos.      

Não me julgue, por favor. Eu sempre tive muito respeito e ainda gosto de quase todas elas, mas gosto de brincar quando sei que a possibilidade de magoar ou causar dor é bastante remota. Em resumo, o que quero dizer é algo que certamente você já sabe: todas as pessoas, sejam ansiosas, pertencentes a algum grupo ou tribo minoritária ou não, são diferentes umas das outras. Por isso, tentar defini-las genericamente não é uma decisão muito inteligente. Caso queira conhecê-las, converse com elas. Vá desarmado(a). Existe chance de você gostar desse momento. Algumas das melhores experiências que já tive até hoje foram em conversas despretensiosas com pessoas diversas. Gente. Diferente. Gente.

Entre um bocado de aprendizados, posso afirmar com segurança: conhecer o outro, além de muito divertido, ajuda-nos a descobrir a nossa própria essência e a transcender. Torna-nos mais sensíveis. Faz-nos melhores e mais humanos. Vale a pena. Boa sorte!

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