Papetes chulequentas.

Faz frio lá fora. Hoje passei o dia assistindo a alguns filmes, reservando um tempo para resolver coisas como dar banho na minha cadelinha, lavar o carro, a louça, trocar o sistema da chave do carro e descansar. Tem uma música do Diogo Nogueira em que ele conta que gostaria de levar aquela garota para um lugar onde tudo pudesse acontecer, inclusive nada. É esse tipo de “nada” repleto de coisas corriqueiras de que eu estava sedento havia dias. Graças a Deus, aconteceu.

Num mundo em que a gente é programado para entregar sempre nosso 100% - e se diga de passagem que eu ainda não consegui descobrir que diabo é esse tal de 100% -, quando a gente tem tempo para respirar, nem que seja só um pouquinho, deve-se dar glória!

Também conversei com minha terapeuta sobre como estava me sentindo ontem. Depois de ter assistido a um filme que ressaltava a beleza da luta por ideais, por aquilo que fazia com que alguém se movesse em meado dos anos 60, com gostinho de rebeldia e contracultura – Os 7 de Chicago –, perto das 23:00, peguei a coleira e fui dar meu último passeio do dia com a Pretinha; escutando uma seleção de músicas do Offspring no Spotify e sentindo raiva. Para conseguir dormir ontem, pedi a alguns amigos que me enviassem algo curto que tivessem escrito recentemente. Precisava me acalmar. Mas por que “raiva”?

Ora, não é fácil viver esses tempos pandêmicos! Ter de ficar longe de pessoas que eu amo, como minha mãe, meu irmão e sobrinhos… isso é quase como um ralo aberto drenando meu ânimo! Minha mãe já está vacinada contra a Covid, mas meu irmão ainda não. E ele ainda trabalha comprando roupas no Brás e as revendendo nas lojinhas que tem em Barretos, cerca de 400 km distante de onde eu moro. É difícil!

Não bastasse isso, ele ainda não se cuida nada. Quase não usa máscara e expõe a si e a tantos outros ao risco dessa merda de doença. Não posso vê-lo porque minha esposa está grávida. E mesmo que ela vá se vacinar na próxima semana porque recebeu um atestado médico para tal, ainda preciso considerar o perigo para mim mesmo. Não é fácil.

Com efeito, é claro que minha mãe, meu irmão e eu podemos nos telefonar. Fazer vídeo-chamadas. Mas não é a mesma coisa. Eu sinto muita falta deles. A minha mãe fala que entende o motivo do meu afastamento. Só que sinto que é mais da boca pra fora, e que ela está tentando racionalizar o que está sentindo. E meu irmão… ele me culpa. Acha que não me importo o suficiente com ele e com a família dele.

Ultimamente, tenho pensado bastante na minha adolescência e em como sentia raiva naquela época. Colégio, cigarros, bebidas, maconha, brigas em casa, amigos, skate. Eu andei de skate até me quebrar tantas vezes, que passei a acreditar que aquele troço não era para mim e decidi largar. Durante o início da minha vida adulta, julgava muito as escolhas que fiz na adolescência. Eu gostava daquele jeito de ser tão errado, curtia ser “cool”, mas aprendi com a vida que apesar da rebeldia atrair, ser uma pessoa “boa” atrai muito mais. Tomar banho, estar sempre higienizado, ser gentil, não menosprezar a inteligência dos outros, ser generoso, isso sim atrai muito. “O que foi que eu tinha feito? Quanto tempo perdi pensando em tanta bobagem?” – era o que vinha à minha cabeça.

Até o ponto em que participei de um curso de autoconhecimento chamado Ressignificar. Enquanto fazia um exercício de meditação guiada, vi a mim mesmo num campo florido, onde havia uma cabana de madeira. Dentro dela, havia um ser, uma presença de uma luz maravilhosa. Senti-me pequeno, mas também confortado. Ele, essa presença, convidou-me a voltar para onde estava acontecendo a minha sintonização, e também me contou um segredo; algo que ainda hoje não consigo exprimir em palavra.

Aquela cabana era gostosa embora bastante simples e tinha um sofá. Nele, estava sentado um garotinho. Era eu mesmo, um menininho fofo com seis anos de idade. Loiro, de olhos inocentes e castanhos, sorriso travesso e alma bondosa. Depois de um tempo, ele já havia crescido e estava com 15-16 anos. Cabelos compridos e cacheados; um rapazote meio magrelo e com papetes chulequentas nos pés. E então, descobri que, apesar de ele ter sido o autor de todas aquelas decisões equivocadas e malucas, também era um carinha gente fina, que gostava de música, de escrever, conversar, e de dividir amor com pessoas queridas. Eu pude abraçá-lo como dois bons amigos se abraçam. Eu o aceitei e aquilo tudo fez sentido. A adolescência da gente é mesmo uma profusão de experiências… e existe momento mais propício a tantas loucuras quanto nessa época? Assim, de repente, com um olhar mais distanciado e generoso para mim mesmo, já não estava mais nervoso.

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