O Lugar do Orgasmo no Caminho Espiritual.
Hoje acordei às 5h da manhã, mas, às 4h30, já estava me revirando na cama, perguntando-me por que estava sem sono naquele horário, já que fui dormir à meia-noite, depois de ler a última página de O Clube do Livro dos Homens.
O fato é que minha mãe costuma levantar todos os dias por volta desse horário e, por causa do barulho e do movimento natural que ela faz em casa, talvez eu esteja me condicionando a acordar nesse mesmo período — o que não é de todo mau e pode, inclusive, tornar-se um bom hábito. Isso despertou em mim mais um insight, somando-se à série de reflexões que venho tendo nos últimos dias.
Muito disso se deve às aulas de filosofia e à proposta de aprendermos a nos autogovernar a partir de um conhecimento profundo de nós mesmos, além de nos relacionarmos com a sociedade com base nessa compreensão. Como mencionei, minha mãe sempre acorda cedo — pelo menos desde que eu nasci — e vai ao trabalho, mantendo uma rotina organizada e exemplar.
Tenho sentido falta de organizar melhor a minha própria rotina como forma de me projetar para o futuro. Dizem que, para pessoas ansiosas, ter uma rotina pode ajudá-las na autorregulação. Crianças, que são naturalmente mais ansiosas, precisam de rotina e de certa previsibilidade para se sentirem seguras.
Tenho 40 anos, prestes a completar 41 na próxima semana e, às vezes, ainda me sinto como uma criança habitando este corpo — continuo com muita vontade de aprender, sinto intensamente os estímulos do dia a dia, gosto de desenhos, jogos de computador e videogames e, graças aos treinos diários na academia, tenho disposição para atividades físicas. Percebo, inclusive, que ainda carrego a mesma necessidade de segurança e previsibilidade típica da infância.
Por que tantas pessoas associam a idade a uma série de limitações? Isso me parece uma distorção preocupante, pois pode nos levar a acreditar em uma incapacidade que não faz sentido. Em alguns momentos, chego a perceber nisso um traço da própria maldade humana, que se manifesta na forma como certas ideias são disseminadas e naturalizadas, muitas vezes com interesses por trás. Penso, por exemplo, na tendência à medicalização excessiva de aspectos naturais da vida, que pode reforçar a ideia de fragilidade e dependência. É um ponto sobre o qual ainda preciso refletir melhor, para compreender com mais profundidade suas causas e implicações.
Mas, deixando de lado, por ora, a ideia de que a indústria farmacêutica possa sustentar essa dependência — não estando necessariamente interessada na cura dos males da humanidade, mas, sim, no próprio enriquecimento —, retorno aos meus pensamentos iniciais e àquilo que vem me tirando o sono.
Infelizmente, estou frustrado com a ideia da transmutação das energias sexuais e com a prática que a Gnose sugere para o despertar da kundalini e a elevação espiritual. Depois de ter aprendido os conceitos e a prática, senti que algo ali não fazia sentido para mim e, por isso, recorri a um ensaio comparativo sobre o tema, elaborado por um amigo que também frequentou a Gnose de Samael Aun Weor.
Na tradição gnóstica moderna, a ideia de preservação do shakti está ligada ao entendimento de que a energia sexual é a forma mais densa e poderosa da energia vital do ser humano. Essa força seria gerada e armazenada nos centros criadores do organismo (associados às gônadas) e, em um nível mais sutil, estaria relacionada ao sistema energético descrito simbolicamente como a base da coluna vertebral, onde repousaria a chamada kundalini.
Segundo essa visão, o shakti não é apenas energia biológica reprodutiva, mas um potencial de transformação interior que, quando preservado e direcionado conscientemente, pode ser refinado e elevado ao longo do corpo, alimentando processos de consciência, lucidez e desenvolvimento espiritual.
Por isso, a Gnose propõe a retenção do líquido seminal durante o ato sexual como uma forma de evitar a “perda” dessa energia vital, entendendo a ejaculação como uma dissipação desse potencial. A proposta central consiste em sustentar a excitação e a união sexual sem chegar ao clímax físico, direcionando essa energia por meio da vontade, da respiração e da atenção consciente. Nessa perspectiva, em vez de ser descarregada, essa força seria convertida em energia psíquica e espiritual — uma energia criadora, com forte potencial criativo —, contribuindo para o despertar da consciência e o desenvolvimento interior.
Essa abordagem, no entanto, é simbólica e espiritual — não científica — e costuma ser interpretada de diferentes formas, sendo, inclusive, questionada ou adaptada por quem busca um caminho mais equilibrado entre espiritualidade e saúde física e emocional.
A medicina, por exemplo, sugere que o homem ejacule cerca de 20 vezes por mês como forma de reduzir o risco de algumas doenças, como o câncer de próstata.
No Tantrismo e no Budismo Vajrayana, o orgasmo não é necessariamente visto como um obstáculo ao despertar, mas como um possível portal — desde que vivido com consciência plena. No Tantra, especialmente em textos como o Vigyan Bhairav Tantra, o clímax pode revelar estados de dissolução do ego e acesso àquilo que se chama de bem-aventurança essencial (ananda), desde que não seja buscado como descarga, mas como expansão da presença. Já no Vajrayana, práticas como o Karmamudra utilizam o êxtase orgásmico de forma ainda mais deliberada: o prazer intenso é combinado com a percepção da vacuidade, de modo que o orgasmo deixa de ser apenas fisiológico e se torna um meio de reconhecer a natureza luminosa da mente. Em ambos os casos, o problema não é o orgasmo em si, mas a inconsciência e o apego que normalmente o acompanham.
Em contraste, no Taoísmo e no Gnosticismo moderno, o orgasmo — especialmente o masculino — tende a ser visto como uma perda ou dissipação da energia vital. No Taoísmo, a ejaculação frequente é considerada um desperdício do Jing, essencial para a longevidade e a vitalidade espiritual, motivo pelo qual se desenvolvem técnicas de retenção e circulação interna da energia.
Assim, enquanto algumas tradições buscam
espiritualizar o orgasmo, outras propõem sua transcendência — não por
repressão, mas por considerá-lo uma forma de dispersão de uma força que poderia
ser direcionada para a transformação interior.
Com o devido respeito à Gnose, a ideia de evitar o orgasmo faz sentido quando consideramos que, na maioria das vezes, um casal não busca o amor durante a prática sexual, mas apenas o objetivo final. É como se utilizássemos o outro para o próprio prazer e satisfação, sem a devida atenção aos seus sentimentos e à sua individualidade. Nesse sentido, talvez o cerne da questão não seja o orgasmo em si, mas a atitude egoísta que o sexo orientado exclusivamente ao clímax pode suscitar.
Um dos argumentos utilizados pela Gnose é que, após o orgasmo, o casal tende a perder o interesse inicial pelo outro. Daí surgiriam a necessidade de variação — novas posições, fantasias, até mesmo a inclusão de novos parceiros — e, em alguns casos, o desgaste da relação. Diversas tradições antigas — e, para aprofundar essa reflexão, recomendo a leitura de A Voz do Silêncio, de Helena Blavatsky, assim como o Bhagavad Gita e o Dhammapada — sugerem que a chave para a ampliação da consciência e o amadurecimento espiritual está em atitudes altruístas; por isso, é natural que haja um olhar cuidadoso sobre a prática sexual.
Ainda assim, essa proposta me parece extrema.
Pretendo continuar estudando e me mantendo conectado à Gnose, pois uma única questão não invalida toda a proposta, seus ensinamentos ou as experiências relatadas por seus praticantes. Respeito esse caminho, mas reconheço que tenho um ponto de vista diferente sobre o sexo.
Vejo no sexo a dois algo profundamente belo — uma
forma de encontro que vai além do corpo e toca dimensões mais sutis da
experiência humana. Quando há presença, respeito e afeto, o ato deixa de ser
apenas uma busca por satisfação e se torna uma expressão de vínculo, de entrega
e até de construção mútua.
E isso inclui o gozo.
Com gosto.
E com amor.
Talvez o problema nunca tenha sido o orgasmo em si, mas a forma como nos relacionamos com ele — muitas vezes de maneira automática, ansiosa e centrada apenas no próprio prazer.
Se existe algo a ser transformado, talvez não seja a energia, mas a consciência que a conduz. A sexualidade, nesse sentido, não precisaria ser negada nem rigidamente controlada, mas compreendida, integrada e vivida com responsabilidade e sensibilidade. Entre a repressão e a indulgência, parece haver um caminho mais equilibrado — um caminho em que o prazer não nos afasta do outro, mas nos aproxima, e em que o encontro não termina no clímax, mas se estende na qualidade da relação que construímos.
Talvez seja nesse ponto que a verdadeira transmutação aconteça.
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