Quando Pensar Demais Me Afasta de Mim.

Estamos caminhando para o final da Quaresma e, possivelmente por influência desse período — que convida ao recolhimento, à reflexão e à renúncia — tenho sentido mais dificuldade em realizar algumas tarefas necessárias e simples. Coisas que, em teoria, deveriam apenas ser feitas, sem tanto peso ou resistência.

Por exemplo: organizar uma rotina semanal, dedicar mais tempo ao envio de currículos, estudar cursos voltados ao uso de inteligência artificial no trabalho, Power BI, UX, inglês, entre outros; telefonar mais para meus familiares; estar mais presente para minha namorada, minha mãe, meu irmão e meu filho… a lista é longa — e, mais do que longa, ela é recorrente. São sempre as mesmas intenções que retornam, como se algo em mim as adiasse silenciosamente.

Diante disso, começo a me questionar se o que venho fazendo tem sido suficiente e, principalmente, de onde vem o bloqueio emocional que, por vezes, me paralisa. O primeiro sentimento que me ocorre é o medo. Um medo difuso, difícil de nomear com precisão, mas suficientemente presente para interferir nas minhas ações.

Eu poderia justificar esse medo como consequência do assalto à mão armada que sofri no final do ano passado. E, de fato, experiências como essa deixam marcas. Elas nos tornam mais atentos, mais defensivos, às vezes mais retraídos. Mas, sendo honesto comigo mesmo, creio que não seja apenas isso. Acredito que esse medo tenha raízes ainda mais profundas, talvez anteriores a esse evento, talvez estruturais na forma como venho lidando com a vida.

E é nesse ponto que percebo algo incômodo: o simples fato de tentar argumentar ou buscar justificativas para a minha inação já revela um certo grau de inconsciência no meu comportamento. Como se eu estivesse, de alguma forma, mais preocupado em explicar o porquê de não agir do que, de fato, em agir.

Nessa reflexão, recorro a alguns conceitos que me ajudam a dar forma a esse conflito interno. Na tradição hindu, a “inação” não significa apenas não fazer nada, mas agir de maneira mecânica, automática, sem consciência ou propósito — o que, paradoxalmente, também é uma forma de não agir de verdade. É o agir vazio, desconectado, que não transforma.

Por outro lado, a “reta ação” aponta para um agir consciente, alinhado, realizado com presença e com certo grau de desapego em relação aos resultados. Não se trata de passividade, mas de uma ação lúcida, que nasce de um estado interno mais ordenado.

Já na Gnose, os chamados “três traidores da alma” — Judas, Pilatos e Caifás — aparecem como símbolos de forças internas que desviam o indivíduo de sua própria verdade. Judas, associado ao desejo, representa aquilo que nos seduz e nos dispersa. Pilatos, a mente que justifica, simboliza nossa tendência a racionalizar a inação. E Caifás, a má vontade, expressa a resistência silenciosa diante do que sabemos que deve ser feito.

Ao considerar esses conceitos, começo a perceber que meu bloqueio talvez não seja apenas circunstancial, mas fruto de dinâmicas internas mais profundas. Não se trata apenas de falta de tempo, de oportunidade ou de energia, mas de uma desordem interna que precisa ser reconhecida e trabalhada com mais consciência.

Assim, reconheço que minha autocobrança faz sentido — ela não é gratuita. Há, de fato, uma distância entre aquilo que sei que deveria fazer e aquilo que efetivamente faço. E é justamente nessa lacuna que surge o desconforto.

Passo, então, a me questionar sobre o que devo fazer para dissolver esses bloqueios emocionais. Recordo-me do pranayama egípcio, da vipassana, da meditação, do agachamento estrela… práticas que, de alguma forma, me reconectam comigo mesmo e ajudam a reorganizar meu estado interno. Mas também me pergunto se essa falta de ânimo não seria, em parte, resultado da ausência de bons resultados na minha tentativa de recolocação profissional. A repetição de tentativas sem retorno pode, aos poucos, minar a motivação. Provavelmente, há algo disso.

 Ainda assim, procuro observar com honestidade: não acredito que se trate de falta de sexo ou de divertimento. Tenho a sorte de contar com uma companheira que me compreende, me estimula e contribui ativamente para o meu bem-estar. Nossa relação é um ponto de apoio, não de fuga.

 Tivemos, inclusive, um final de semana recente que ilustra bem isso: nos hospedamos em um Airbnb em um arranha-céu no centro de São Paulo, com uma vista impressionante para o Vale do Anhangabaú, o Edifício Martinelli, o bar A Balsa e o Farol Santander. Caminhamos pela cidade, assistimos ao campeonato mundial de skate, visitamos o Copan e almoçamos uma deliciosa comida vietnamita. Momentos simples, mas cheios de presença. E, de modo geral, buscamos proporcionar esse tipo de experiência com frequência.

Também não se trata de falta de cuidado com o corpo. Tenho ido à academia diariamente, me alimentado bem, mantido uma rotina minimamente saudável. O corpo, como se costuma dizer, é uma verdadeira fábrica de hormônios — e, nesse aspecto, sinto que tenho feito a minha parte.

Ainda assim, algo persiste. Uma inquietação de fundo, uma ansiedade silenciosa, que se manifesta mais nos intervalos do que nos momentos de ação. E é justamente essa ansiedade que decido encarar sem o uso de medicação, ao menos por enquanto. Não por negação, mas por escolha consciente de tentar compreendê-la antes de silenciá-la.

Por isso, escrevo. Escrevo para ordenar meus pensamentos, para dar nome ao que sinto, para entender como cheguei até aqui e, sobretudo, para esclarecer o momento presente. A escrita, nesse sentido, torna-se quase um espelho.

E então me pergunto: será que não estou roubando de mim mesmo o meu próprio tempo de agir de forma mais eficiente? Será que essa análise constante não se transforma, em algum momento, em mais uma forma sutil de inação? Por que permanecer nesse estado mental tão cansativo e, ao mesmo tempo, tão familiar?

Ligo o som e começo a escutar uma música mais animada — Put Your Records On, de Corinne Bailey Rae. Há algo de leve nessa música, algo que parece dizer: “vá com calma, mas vá”. São 10h28 da manhã, o que significa que, em breve, devo telefonar para o meu filho e partir para o treino. Movimento. Ação. Corpo em atividade.

E percebo que talvez seja isso que esteja faltando em alguns momentos: menos elaboração e mais movimento.

Talvez os pranayamas, o agachamento estrela, o café, a escrita e as minhas orações estejam, sim, dando resultado. Não como soluções mágicas, mas como pequenos ajustes que, somados, mudam o estado interno. Já me sinto um pouco mais energizado do que quando acordei — e isso, por si só, já é um sinal.

Agora começa a tocar Sweet Dreams (Are Made of This), de Annie Lennox e Dave Stewart — “Sweet dreams are made of this / Who am I to disagree? / I travel the world and the seven seas / Everybody’s looking for something.” Ao ouvir esses versos, percebo que talvez essa inquietação que sinto não seja um erro, mas parte da própria condição humana. Todos estamos, de alguma forma, em busca de algo — sentido, direção, segurança, realização.

A diferença talvez esteja em não permitir que essa busca se transforme em paralisia.

Se todos procuram, então talvez o que me cabe não seja encontrar todas as respostas agora, mas seguir em movimento, mesmo com dúvidas, mesmo com medo. Agir, ainda que imperfeitamente, na direção daquilo que reconheço como certo.

Acredito que devo evitar me identificar com a imagem mental que construo de mim mesmo — essa versão idealizada que, muitas vezes, mais cobra do que orienta. Afinal, sou, antes de tudo, uma consciência em processo, uma alma aprendendo a se mover dentro das circunstâncias que encontra.

E, se há algo que me cabe com clareza, é agir. Ninguém pode fazer isso por mim.

No princípio, era o Verbo.

E, talvez, no presente, o verbo precise voltar a ser ação.

AUM.

 


 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O caminho não está em acumular respostas, mas em aprofundar a existência.

Entre o impulso e a consciência: a liberdade começa a respirar.

Metanoia: Da Culpa à Participação na Verdade