Um dos maiores desafios de viver em sociedade.
Um dos maiores desafios de viver em sociedade é o fato de muitas vezes não sabermos quem realmente somos. Imaginamos conhecer nossa própria natureza, mas, na maioria das vezes, estamos tão condicionados por crenças equivocadas que acabamos nos identificando com ideias pré-concebidas, com aquilo que outras pessoas projetam sobre nós ou ainda com desejos diversos. Esse estado de confusão acerca de si mesmo foi associado por Platão a uma forma de desordem da alma, que poderia ser entendida como uma espécie de loucura.
Não é por acaso, portanto, que
muitos de nós acordamos diariamente, tomamos café da manhã, tomamos um banho,
escovamos os dentes, vamos ao trabalho, nos alimentamos novamente, escovamos os
dentes outra vez e continuamos trabalhando. Ao final do dia, voltamos para
casa, assistimos a um pouco de Netflix, tomamos outro banho, jantamos,
escovamos os dentes novamente e dormimos, apenas para recomeçar essa mesma
rotina no dia seguinte — ao menos durante os dias úteis. Quando chega o fim de
semana, finalmente respiramos e temos um pouco de lazer.
O que muitas vezes não percebemos
é que estamos condicionados a viver em uma espécie de bolha de desejos e
impulsos quase instintivos, pensando em nós mesmos sobretudo como sobreviventes
e, raramente, enxergando verdadeiramente o outro. Às vezes, alguns de nossos
desejos se traduzem no celular mais moderno, na televisão smart mais avançada,
no carro do ano ou em roupas e sapatos para cada ocasião. No entanto, nada
disso parece realmente sustentável. Vivemos em um mundo marcado pelo consumo e
pelos excessos, no qual esperamos, no fundo, que comprar um novo iPhone de R$
15.000 — que, em menos de um ano, possivelmente custará apenas uma fração desse
valor — nos trará felicidade.
No entanto, será que a compra
desse celular não é apenas o reflexo de um momento de euforia ou de ansiedade?
Será que a alma humana realmente clama por um bem material tão supérfluo quanto
um celular, ou desejamos algo mais profundo do que isso?
Segundo a tradição filosófica
hindu que descreve a chamada constituição septenária do ser humano, nossa
natureza seria composta por sete princípios ou aspectos. Quatro deles estariam
associados à dimensão da personalidade: o corpo físico, ligado ao reino
mineral; a energia vital, relacionada ao reino vegetal; a natureza instintiva
ou emocional, associada ao reino animal; e a mente de desejos, responsável
pelas inclinações e impulsos que nos conduzem à busca de satisfação imediata.
Além desses aspectos mais ligados
à personalidade e à vida cotidiana, haveria ainda três princípios mais
elevados: a mente pura ou superior, capaz de discernimento e reflexão; a
intuição espiritual, que nos conecta a verdades mais profundas; e, por fim, o
princípio espiritual mais elevado, que representaria a essência mais profunda
do ser humano.
Dentro dessa perspectiva, o
conflito que muitas vezes experimentamos em nossa vida interior surge
justamente da tensão entre esses diferentes níveis da nossa natureza. Enquanto
a dimensão mais instintiva tende a nos direcionar para a satisfação imediata de
desejos e necessidades, os aspectos mais elevados da mente e da consciência nos
convidam a buscar significado, propósito e compreensão.
Talvez seja justamente nesse
ponto que se encontre o verdadeiro desafio da existência humana: aprender a
reconhecer essas diferentes forças dentro de nós e desenvolver a capacidade de
harmonizá-las, para que a vida não seja apenas uma repetição automática de
hábitos e impulsos, mas um caminho de autoconhecimento e transformação.
Enquanto nosso autocentrismo
estiver posicionado na base dessa constituição, permaneceremos incapazes de
enxergar verdadeiramente o outro. Para superar esse estado, é necessário
sublimar nossos desejos mais egoístas e direcioná-los para um ideal mais elevado.
Assim, poderemos reconhecer nossos próprios vieses e limitações, identificar
oportunidades de aprimoramento e nos tornar mais altruístas e capazes de
conviver em paz, concórdia e fraternidade.
Devemos, portanto, buscar algo
que vá além da nossa própria subjetividade e aprender também a reconhecer e
respeitar a subjetividade do outro — talvez este seja um dos maiores desafios
da vida em sociedade.
Reconhecer que somos todos
imperfeitos, caminhando nesta Terra em busca de evolução, e que, nesse
percurso, devemos servir uns aos outros, unidos e de mãos dadas.
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