Não sou o mocinho, mas também não preciso ser o vilão.
Escrever nem sempre é fácil. Trata-se de um ato de resistência — resistência às pressões externas e à fuga de quem eu sou. É no ato de escrever que consigo me concentrar naquilo que pulsa em meu coração e enxergar, com mais clareza e objetividade, o que se passa em minha mente.
E, com incômoda frequência, deparo-me com aspectos de mim mesmo que preferiria evitar: pensamentos e sentimentos que gostaria de enterrar. Ainda assim, depois de desveladas essas questões internas, surge um novo desafio — o de me acolher com generosidade, amor e algum grau de honestidade. Afinal, sou um ser imperfeito, que erra enquanto tenta acertar.
Errar faz parte do processo de aprendizado e evolução. Negar o erro, portanto, é negar esse próprio movimento.
Hoje, proponho-me a reunir coragem para falar sobre aquilo que, muitas vezes, tento calar.
Fui traído. Traí também. Cedi ao desejo.
Tudo começou quando meu relacionamento com minha ex-esposa (namorada à época) já não andava bem. Eu sequer tinha certeza se ainda estávamos juntos. Estava carente, confuso, querendo ser visto. Procurava um ombro amigo — e foi nesse espaço que ela entrou.
Ela me ouvia. Me validava. Fazia-me sentir interessante de novo. E isso, por si só, já era perigoso.
A conexão cresceu rápido. Intensa. Quase — ou talvez realmente — viciante. O que começou como troca de apoio virou rotina: mensagens ao longo do dia, madrugadas em ligação, risadas, confidências, planos, cumplicidade.
Projetos de arte em comum. Conversas sobre filmes. Músicas compartilhadas como códigos secretos. Aulas de inglês que se tornavam desculpa para estarmos juntos. Apoio mútuo em momentos sombrios — depressão, medo, ideias que beiravam o abismo.
E, no meio disso tudo, o desejo.
Ele não chegou de uma vez. Foi se insinuando — em brincadeiras, insinuações e limites que eram testados e, pouco a pouco, rompidos, sem que eu tivesse coragem de admitir o que estava acontecendo.
Houve um dia em que simplesmente larguei o trabalho às 15h e fui embora, quase correndo, para chegar em casa a tempo da nossa aula. Mas não era sobre a aula. Eu podia até dizer que era — mas não. Era sobre ela. Sempre foi.
Eu sabia que estava errado. Em algum nível, sempre soube. Mas saber não impediu. Eu quis. Eu alimentei. Eu continuei.
As conversas foram se tornando mais íntimas, mais carregadas, mais difíceis de ignorar. Havia tensão, provocação, vontade. E eu respondia. Eu participava. Eu atravessava cada linha sabendo que não havia volta limpa dali.
Não foi um acidente. Foi uma sequência de escolhas.
Não como um inimigo externo, mas como algo que habitava em mim: uma força que distorcia, justificava, sussurrava que “não era tão grave assim”, que “eu merecia aquilo”, que “ninguém precisava saber”.
Uma vida dupla começou a se formar. Ela também tinha um namorado. Dizia que o amava como amigo, como alguém querido, mas distante — alguém que já não despertava nela desejo. O vínculo entre eles havia deixado de ser erótico.
E, ainda assim, isso não tornava nada mais simples. Apenas mais conveniente.
A imagem dela se misturava às praias cariocas, às risadas fáceis e a uma vida que me parecia bonita — entre livros, família e dublagem. Ela era gentil com as crianças. Eu me apaixonei.
E, nesse processo, acabei conhecendo um lado meu que estava adormecido: mais aventureiro, mais corajoso, mais disposto. Alguém que liderava pessoas em projetos em comum — manutenção de um site nerd, mesas de RPG, audiodramatizações — e que voltava a escrever depois de um longo hiato, após ter abandonado um sonho.
Dizem que as pessoas por quem nos apaixonamos também nos fazem apaixonar por nós mesmos. Com ela, experimentei isso. Eu dizia, com frequência, que era grato por tudo o que estava redescobrindo. E, de algum modo, ainda devo esse agradecimento.
Mas, junto com isso, um outro lado meu também emergiu — mais vaidoso, mais inflado, mais destrutivo.
Depois de ter vivido um relacionamento anterior em que já havia sido traído, e de ter associado isso ao fato de ser “bom demais”, comecei a me apegar a uma nova narrativa: a de que era melhor ser o contrário.
Eu gostava da sensação.
Gostava de não ser o ingênuo. Gostava da ideia de estar no controle. Gostava de me ver como o cara breaking the rules, crossing the line.
Em algum momento, passei a acreditar nisso.
E, talvez pior: passei a justificar.
Se a vida é assim… se fazem isso com quem tenta fazer o certo… então que seja.
Então, agora, eu seria o outro lado.
Não mais o mocinho.
O vilão. O badass da história. Fuck you.
Houve momentos particularmente confusos — como quando conheci o namorado dela: um cara extremamente gentil, inteligente e espiritualizado. E, ainda assim, nos tornamos bons amigos.
Certa vez, outro conhecido em comum me disse que eles — ela e o namorado — tinham um relacionamento aberto. Talvez eu tenha me apropriado dessa informação para legitimar o que eu já queria fazer. Afinal, ela nunca havia me dito isso diretamente.
Ele nunca soube. E eu admirava o cuidado que ela tinha com ele, justamente por não querer magoá-lo. Entre ela e mim, não havia segredos.
Pouco a pouco, fui me acostumando com a ideia de ter uma amante. Flertava com o conceito de amor livre. Convencia-me de que era possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo — como uma mãe ama dois filhos de formas diferentes e, ainda assim, permanece inteira para ambos.
Hoje, ao escrever estas linhas, percebo o quanto estive vaidoso — e de que maneira agi de forma incoerente com as duas pessoas que eu dizia amar. Eu nunca estive inteiro. Meus sentimentos estavam fragmentados, ainda que intensos: culpa, medo, desejo, aventura, coragem… e uma necessidade constante de provar algo a mim mesmo.
Quando, na verdade, eu deveria ter saído de campo muito antes.
Até o dia em que dissemos, um ao outro, que precisávamos atravessar aquela fronteira. Que já não bastava mais falar — precisávamos viver aquilo no corpo.
Precisávamos nos encontrar. Pelo menos uma vez na vida.
Eu gostaria de dizer que a experiência foi ruim, que me decepcionei.
Mas não foi.
Em pleno dia de semana — acho que numa quinta-feira — acordei às 4h da manhã, abasteci o carro e peguei a estrada em direção à cidade dela, a cerca de 480 km da minha.
O dia estava bonito. A viagem, agradável. A Via Dutra se abria em paisagens amplas, marcadas pela imponência da Serra das Araras — com suas subidas íngremes, descidas longas e curvas sinuosas — e, mais adiante, pela travessia da ponte Rio–Niterói, onde o mar refletia a luz do sol de forma quase hipnótica.
Por fora, tudo parecia em paz.
Por dentro, não. Tudo queimava.
Meu celular começou a descarregar e, já próximo da cidade dela, apagou de vez. Sem GPS, não conseguiria chegar. Tive que parar, esperar alguns minutos, olhar ao redor, respirar… antes de seguir.
Seguimos nos falando durante o trajeto. Lembro que, no dia anterior, ela havia sugerido — com naturalidade — que eu levasse preservativos.
Cheguei à cidade dela.
E a encontrei.
Ela era ainda mais bonita do que todas aquelas videochamadas, fotos e vídeos haviam me prometido — e mais alta também. Havia algo nela que nenhuma tela conseguia traduzir por completo: o sorriso, a presença… e aquela pequena pinta no canto da boca.
Nos beijamos assim que nos vimos.
Sem cerimônia. Sem espaço para dúvida.
Como se aquele momento já estivesse acontecendo há muito tempo, apenas aguardando o encontro dos nossos corpos para se tornar real.
Seguimos para um hotel que ela havia indicado — próximo ao mar, cercado por uma tranquilidade que contrastava com tudo o que se passava dentro de mim.
Lembro de uma árvore na entrada. Um detalhe simples — mas que, por algum motivo, ficou gravado.
Paguei o quarto pelas horas que passaríamos juntos.
Subimos as escadas com pressa.
E, ainda assim, cada passo parecia, ao mesmo tempo, leve e carregado — como se eu soubesse exatamente onde estava me colocando e, mesmo assim, escolhesse continuar.
Ali, já não havia teoria, nem discurso, nem justificativa.
Apenas presença.
E escolha.
Entramos no quarto.
E tudo aquilo que, até então, existia em palavras, mensagens e imaginação… finalmente ganhou corpo.
Uma calcinha vermelha, fio dental.
Até hoje me pergunto: em que momento aquilo foi pensado?
E por quê.
Foram algumas das melhores experiências da minha vida.
Ainda hoje, penso no que fazer com essas memórias.
Hoje, olhando para tudo isso com a distância que o tempo permite, não tento reescrever o que aconteceu — nem suavizar.
A verdade é mais simples e mais incômoda do que qualquer narrativa que eu pudesse construir: eu quis. Eu escolhi. Eu atravessei.
E também é verdade que, por um tempo, aquilo me fez sentir vivo de um jeito que eu não me sentia havia muito tempo.
Talvez seja isso que mais confunde.
Porque não foi vazio. Não foi irrelevante. Não foi um erro “bobo” que posso descartar com facilidade.
Foi intenso. Foi real. E, justamente por isso, foi perigoso.
Mas intensidade não é sinônimo de verdade. E desejo não é bússola confiável.
Aprendi, da forma mais concreta possível, que não sou imune às minhas próprias contradições. Que, quando estou vulnerável, sou capaz de construir justificativas convincentes para sustentar escolhas que, no fundo, eu já sei que vão me afastar de quem eu quero ser.
E talvez esse seja o ponto mais importante de tudo isso:
não foi sobre ela.
Foi sobre mim.
Sobre o quanto eu precisava ser visto. Sobre o quanto eu queria me sentir desejado, admirado, vivo. E sobre o quanto, naquele momento, eu estava disposto a pagar o preço disso — mesmo que esse preço fosse a incoerência.
Hoje, não carrego mais a fantasia de ser “o cara certo” o tempo todo.
Mas também não sustento mais a narrativa de que preciso ser o contrário.
Eu não sou o mocinho.
Mas também não preciso ser o vilão para me sentir vivo.
Entre esses dois extremos, existe um lugar mais difícil — e mais honesto — de ocupar.
E é ali que eu tenho tentado ficar.
Ainda penso, às vezes, no que vivi. Não como quem deseja voltar, mas como quem reconhece o próprio caminho — com tudo o que houve de bonito, de errado e de inconcluso.
Algumas memórias não pedem repetição.
Pedem entendimento.
E, talvez, responsabilidade.
Porque, no fim, não é sobre apagar o que fui.
É sobre escolher, com mais consciência, quem eu continuo sendo.
Comentários
Postar um comentário