Nicolas: o melhor presente que a vida me deu.

Algo em mim está acontecendo de forma silenciosa, constante e, ao mesmo tempo, assustadora: sinto que estou me curando de feridas emocionais profundas — do divórcio, da separação, das traições e do afastamento forçado do meu filho.

Percebo que ainda dói muito, mas estou me movendo em direção ao perdão — principalmente de mim mesmo, pelos erros que cometi, e também da Fernanda — para, enfim, seguir em frente.

É como se eu estivesse navegando por um rio de emoções turbulentas. Como alguém que esteve à deriva, tomado pelo pânico de um tsunami que ameaçava seu barco e que agora começa a avistar, ao longe, um cais seguro onde pode atracar.


Ontem, passei o dia inteiro remoendo as reflexões que tive depois de escrever — tentando entender de que maneira os sentimentos que vivi em 2015 e 2016 ainda me afetam. Aquela história sobre desejo, escolhas e a coragem de decidir quem eu continuo sendo… e como tudo isso ainda pode ser, às vezes, uma âncora que impede a minha vida de avançar.

Estive aflito e ainda me percebo atribuindo esse excesso de pensamentos e sentimentalismo às provas do ar e do fogo da minha iniciação na segunda câmara da Gnose. Ao mesmo tempo, me pergunto se tudo isso não seriam formas que meu ego, ainda vaidoso, vem elaborando para evitar que eu faça aquilo que preciso: cumprir a missão de cuidar de mim, do meu filho e de aceitar os desafios que a vida tem me apresentado com constância, perseverança, disciplina, paciência… trabalho e sacrifício.

Já faz cerca de dois meses que tenho evitado o consumo de maconha, bebida, cigarro ou qualquer outra droga. Tenho dado preferência a uma alimentação equilibrada, frequentado as aulas de filosofia na Nova Acrópole e conferências gnósticas, e me exercitado diariamente — tanto física quanto espiritualmente. Sinto-me lúcido de uma maneira que não sei se já experimentei antes.

Ainda assim, sinto falta da sensação de expansão de consciência que, em alguns momentos, experimentei ao fumar maconha. Não é fácil sustentar a decisão de buscar esses mesmos estados a partir dos meus próprios recursos internos — especialmente quando a ansiedade aparece.

Em uma das muitas conversas profundas que venho tendo com a Thays, ela sugeriu que Deus tem me acompanhado nessa caminhada e que uma das manifestações do poder Dele — uma bênção maravilhosa que recebi — foi o próprio nascimento do Nicolas, meu filho, que hoje tem quatro anos.

Em 2019, a Fernanda e eu já estávamos juntos havia dez anos e, apesar das tentativas e do desejo de termos um filho, ainda não havíamos conseguido engravidar. Um ou dois anos antes, durante uma meditação guiada no curso de autoconhecimento “Ressignificar”, fiz um exercício de visualização em que ouvi a voz de uma menina enquanto me via no útero da minha mãe — e associei aquela experiência a uma espécie de presságio da chegada de uma filha.

Desde cedo, sempre desejei ter uma menina, porque havia escutado que filhas tendem a ser mais carinhosas e atenciosas com o pai. E que pai não gostaria de receber o carinho de uma filha? Além disso, por ter crescido com um irmão mais novo, eu desejava experimentar como seria ter alguém do sexo oposto na família, crescendo e aprendendo ao meu lado.

Naquele mesmo curso, projetei como seria meu futuro para os anos seguintes e desenhei, em uma folha de papel, aquilo que desejava: um avião, uma família com uma filhinha e uma casa. Em pouco tempo, viajei para o Líbano e para o Chipre com a operadora de turismo em que trabalhava e comprei um apartamento dentro das minhas possibilidades, no lugar onde queria viver. Foi incrível e surpreendente. Só faltava a criança.

Ao investigar as possíveis causas para a gravidez que não chegava, um urologista identificou em mim uma baixa contagem de espermatozoides, atribuída a uma varicocele — uma dilatação anormal das veias do cordão espermático, semelhante a varizes, que ocorre no escroto e pode afetar a circulação sanguínea dos testículos. Lembro-me de ter saído daquele consultório devastado, chorando copiosamente no Uber, a caminho de casa. Eu queria muito ter um filho.

Senti medo de que, como um tio da minha família, eu nunca fosse capaz de ter um filho biológico e precisasse adotar uma criança — lidando com possíveis traumas dela ao mesmo tempo em que aprenderia a educá-la e a cuidar de outro ser humano. Também temi que, após a cirurgia necessária para corrigir aquele problema, eu pudesse ficar impotente e não ter mais prazer sexual.

Ainda assim, a vontade de ter um filho foi maior, e decidi passar por aquele processo. Depois da cirurgia, fiquei literalmente de saco roxo e inchado durante uma ou duas semanas, em casa, com as pernas para o alto — exceto nos momentos em que precisava levar a Pretinha para passear, já que nem o Dorival nem a Fernanda faziam isso —, assistindo Naruto e tomando chimarrão durante a recuperação. Andar doía bastante.

Mas devo admitir que teria sido impossível sem a disposição da Fernanda. Acompanhada por seu ginecologista, ela passou a tomar complexos vitamínicos e realizou um procedimento de raspagem uterina para tratar o espessamento do endométrio, que pode dificultar a implantação de um óvulo fecundado.

Assim, no dia 5 de janeiro de 2021, enquanto estávamos hospedados em uma casa de veraneio que meu ex-cunhado havia alugado na praia de Toque Toque Grande, em São Sebastião, e enquanto a Covid-19 dava seus primeiros sinais de que não seria apenas uma “gripezinha”, a Fernanda me contou que estava grávida.

E, pensando bem… essa foi a melhor notícia que já recebi em toda a minha vida.

Com o convênio que a Thales — a empresa em que eu trabalhava — nos oferecia, fizemos todo o pré-natal direitinho: acompanhei todos os exames de ultrassom e o desenvolvimento do Nicolas na barriga da mãe e, já no terceiro mês, veio a notícia de que aquela criança seria um menino.

Honestamente, logo me acostumei à ideia de que não seria a menina que eu havia imaginado. Eu estava tão feliz que comecei a perceber que existe uma certa inteligência na vida, que nos oferece exatamente aquilo que precisamos para evoluir. E que o fato de eu ter um filho homem talvez estivesse diretamente ligado à oportunidade de ressignificar a experiência de não ter tido um pai presente, já que o meu faleceu quando eu tinha 10 anos.

Isso significava — e continua significando — a oportunidade de ser o pai que eu não pude ter durante a adolescência e a fase adulta. De aprender a ser o meu próprio pai. E, ao mesmo tempo, o pai que quero ser para o Nicolas.

Escrevo essas linhas muito emocionado com todas essas memórias; chega a ser difícil encontrar uma conclusão. E talvez eu nem queira… porque aquilo que toca o coração não necessariamente precisa de um fim.

Ainda quero falar do meu filho — de como ele é especial. De como tem sido mágico, desafiador e incrivelmente prazeroso acompanhar o seu crescimento. Ele é, de fato, o presente mais valioso que a vida me deu.

A Thays tem razão.

Talvez, no fim das contas, tudo isso faça mais sentido do que eu consigo compreender agora. Talvez esse caminho — com dor, medo, disciplina, quedas e recomeços — tenha sido necessário para me trazer exatamente até aqui: mais consciente, mais presente e mais disposto a ser quem eu preciso ser. Não apenas por mim, mas por ele.

Porque, quando olho para o Nicolas, eu não vejo apenas o filho que eu tanto quis ter. Eu vejo uma oportunidade viva de reconstrução. De fazer diferente. De oferecer aquilo que me faltou. E, ao mesmo tempo, de aprender — todos os dias — que ser pai não é sobre perfeição, mas sobre presença, verdade e amor.

Mas, sobretudo, eu o enxergo do jeitinho perfeito que ele é.

E talvez seja isso que, silenciosamente, vem acontecendo dentro de mim: não apenas a cura das feridas… mas o nascimento de um pai.

Talvez esse seja, de fato, o cais que comecei a avistar lá atrás.

O Nicolas não foi só a melhor notícia que eu já recebi — ele é, todos os dias, o maior presente que a vida me deu.

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