O que existe entre a criança e o adulto responsável?

Esses dias, a Thays me perguntou: o que existe entre a criança e o adulto responsável? E eu respondi que não necessariamente precisa existir algo entre eles.

Quis dizer com isso que o adulto pode — e talvez deva — carregar consigo a criança que habita em seu interior por toda a vida. Mas é importante reconhecer: há um desafio nisso. O verdadeiro desafio está em ser feliz e manter-se integrado na fase adulta.

Já explico melhor o meu ponto de vista, mas antes quero responder a quem disse que o que existe nesse intervalo é o adolescente.

Não é bem isso...

De fato, o adolescente em nós também pode — e deve — ser integrado ao adulto. No entanto, ao meu ver, o adolescente é, em essência, uma criança em um corpo maior e mais desenvolvido.

O adolescente já é capaz de articular pensamentos, criar, sustentar alguma coerência e começar a dialogar com a vida. Ainda assim, não está completamente desenvolvido. O engano que muitos de nós cometemos durante essa fase é acreditar que já somos adultos e que sabemos fazer escolhas plenamente conscientes. Acredite: se você é adulto hoje, percebe que ainda estávamos aprendendo naquela época.

Vou recorrer à neurociência, mas, por favor, não me veja como alguém pedante.

Estudos indicam que o cérebro humano, especialmente o córtex pré-frontal (região associada ao planejamento, controle de impulsos e tomada de decisões), continua em desenvolvimento até o início da vida adulta, frequentemente até por volta dos 25 anos.

Isso ajuda a explicar por que muitas decisões que tomamos na adolescência, acreditando estar certos, nem sempre são as mais equilibradas. Nessa fase, sistemas ligados à emoção e à recompensa tendem a estar mais ativos do que os sistemas de controle e regulação. Por isso, o adolescente tende a se arriscar mais, agir com maior impulsividade e a se lançar em diversas experimentações.

Ainda assim, há sabedoria nisso: esse período faz parte do nosso desenvolvimento e é essencial para o aprendizado. Saber algo de verdade implica vivenciar — sentir na pele, construir memória e reconhecimento. O contrário disso é apenas ter uma noção, uma ideia que permanece no campo da imaginação.

Além disso, há um ponto importante: as “personas” com as quais nos identificamos ao longo do nosso desenvolvimento não desaparecem — elas permanecem em nós. Na vida adulta, continuamos tendo acesso a essas diferentes formas de ser, que podem emergir conforme o contexto em que estamos inseridos.

Quando estamos brincando com uma criança, por exemplo, faz sentido permitir que a nossa própria criança interior se manifeste — isso facilita a conexão, cria vínculo e torna a interação mais genuína. Da mesma forma, em um ambiente descontraído, como uma balada com amigos, abrir espaço para o nosso “adolescente” pode tornar a experiência mais leve, espontânea e divertida.

O sociólogo Erving Goffman, no livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana, propõe uma ideia interessante: a de que a vida social se assemelha a um palco de teatro. Segundo ele, todos nós, em alguma medida, desempenhamos papéis — e as “personas” (do latim, “máscaras”) fazem parte desse processo. Não se trata de falsidade, mas de adaptação. Em cada interação, ajustamos nosso comportamento com alguma intenção, ainda que nem sempre consciente: buscamos ser compreendidos, aceitos ou corresponder ao contexto em que estamos inseridos.

Diante disso, o desconforto que às vezes sentimos — a dúvida sobre estar sendo autêntico ou não — pode surgir justamente dessa multiplicidade de papéis. Mas talvez a questão central não seja o fato de utilizarmos “máscaras”, e sim a forma como as utilizamos. Afinal, não somos seres rígidos, limitados a uma única forma de existir; somos, por natureza, adaptáveis.

Nesse sentido, a flexibilidade emocional e social pode ser vista como uma virtude. Saber transitar entre diferentes formas de se expressar, sem perder o senso de identidade, amplia nossa capacidade de nos relacionar e aprender com o outro.

A pergunta mais importante, então, talvez não seja “estou usando uma máscara?”, mas sim: essa máscara foi escolhida por mim — de forma consciente — ou apenas incorporada a partir das expectativas dos outros?

E indo um pouco além: as ideias que eu tenho são realmente minhas ou foram apenas introjetadas ao longo do caminho? De onde vêm essas vozes que orientam minhas escolhas?

Fazer esse tipo de questionamento de tempos em tempos pode ser um exercício valioso. Assim como também pode ser útil refletir sobre o efeito que desejamos provocar nos outros a partir das nossas atitudes — afinal, toda ação carrega, em alguma medida, uma intenção e gera uma resposta no mundo ao nosso redor.

Dito isso, quando chegamos à fase adulta, inevitavelmente nos deparamos com responsabilidades e exigências sociais: pagar contas, trabalhar, cumprir compromissos e tantas outras obrigações. Muitas dessas demandas podem ser cansativas e, por vezes, nos afastam daquilo que sentimos como leveza.

Nesses momentos, é comum surgir a sensação de que a vida era mais simples — e mais gostosa — na infância.

Mas talvez o ponto mais importante seja este: aquela criança nunca foi embora. Ela continua na gente.

E, em alguma medida, crescer não é abandoná-la —

é aprender a dar espaço para que ela exista, mesmo em meio às responsabilidades.

A partir disso, a pergunta muda de eixo: já não se trata mais do que existe entre a criança e o adulto responsável. Se essa criança permanece em nós, então não há, de fato, uma distância entre essas partes.

A questão passa a ser outra: por que, então, deixamos de nos sentir conectados a ela? O que tem nos afastado dessa integração na vida adulta?

O problema é que, muitas vezes, não nos conhecemos.

E isso não é por acaso. Há também um contexto maior. O sistema educacional brasileiro, há muito tempo, não cumpre plenamente aquilo que deveria ser uma de suas funções centrais: desenvolver consciência, senso crítico e autoconhecimento.

Em vez disso, frequentemente prioriza a transmissão mecânica de conteúdo, formando indivíduos que acumulam informação, mas que pouco compreendem a si mesmos.

E há interesses nisso. Interesses que se beneficiam de uma população menos consciente, menos crítica, mais facilmente conduzida. Interesses que, como vampiros, se alimentam de um estado de inconsciência coletiva — drenando energia, tempo e potência de indivíduos que poderiam, em outra condição, agir com muito mais lucidez.

Porque uma pessoa que não se conhece não questiona.

E uma pessoa que não questiona é mais fácil de conduzir.

Sem energia e sem consciência, não exercemos nosso verdadeiro poder — e nos afastamos daquilo que, no fundo, nos move.

A própria palavra “educar” tem origem no latim educere, que significa “conduzir para fora” ou “trazer para fora”.

Ou seja: educar não deveria ser apenas inserir conteúdo, mas ajudar a revelar aquilo que já existe em potencial dentro de cada pessoa.

Isso inclui dar luz às nossas capacidades, virtudes, consciência e inteligência — no sentido mais amplo —, que permanecem latentes e fazem parte da nossa verdadeira natureza.

Inevitavelmente, a conclusão a que chegamos é que permanecemos insatisfeitos porque não conseguimos reunir e conciliar todas as versões de nós mesmos em um único ser — e aquilo que nos fragmenta raramente nos faz bem.

E, nesse processo, acabamos também nos distanciando da compreensão do sentido da vida.

O Buda Siddhartha Gautama, quando alcançou o Nirvana, não se apropriou de algo novo, nem se entregou aos prazeres. Pelo contrário, abriu mão das ilusões que o aprisionavam ao sofrimento.

Debaixo da árvore Bodhi, ele não ganhou — ele deixou de sustentar ilusões.

Percebeu, de forma direta, que tudo é impermanente; que não existe um “eu” fixo e separado de tudo e de todos; e que o sofrimento nasce do apego a essa ideia de “eu”. Ponto importante: essa realização não foi intelectual — foi experiencial.

E uma das chaves para essa compreensão está na ideia do altruísmo.

Um ser adulto deveria, antes de tudo, refletir sobre o seu dever para com a sociedade, compreendendo de que forma pode ser mais útil — a si mesmo e aos outros. Todas as nossas qualidades e competências têm um propósito. Não é exagero afirmar que, quando deixo de oferecer aquilo que tenho de mais valioso, de certo modo estou privando — a mim e ao mundo — de algo potencialmente transformador.

Portanto, o dever não deveria ser apenas cumprido, mas compreendido e integrado. Aceito como ideal de vida.

O desafio está em fazer com que aquilo que sonho, penso, sinto, desejo, digo e faço esteja alinhado com quem eu escolho me tornar.

Quando somos crianças, uma das coisas mais bonitas é a nossa capacidade de imaginar. Criamos mundos, desenhamos possibilidades e nos encantamos com o que descobrimos. Há leveza, curiosidade e abertura — mas ainda não temos força para transformar tudo isso em realidade.

Na adolescência, essa imaginação ganha intensidade: começamos a questionar, experimentar, testar limites e ensaiar quem podemos nos tornar. Ainda há impulso e contradição, mas também surge um primeiro contato com escolha e responsabilidade.

Na vida adulta, por sua vez, adquirimos força, recursos e uma compreensão mais ampla do que precisa ser feito. E é aí que reside o ponto central: podemos agir — sem abrir mão daquilo que um dia soubemos imaginar.

Entre a criança e o adulto responsável não existe um corte — existe a escolha diária de agir com consciência sem perder a capacidade de sentir.



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