Um pouco mais de consciência, um pouco mais de presença e o coração no lugar.
“Mãe das águas, me leva pra lá, onde o sol cura e faz a alma brilhar.
No balanço do vento, eu vou me encontrar.”
De vez em quando, me questiono sobre o que é, de fato, a espiritualidade. E, às vezes, me ocorre que todas as imagens que construí ao longo do tempo — como a de um deus barbudo, sentado numa nuvem, a julgar tudo e todos; a de um céu povoado por anjos de cabelos cacheados e loiros, tocando harpas no umbral de um portal guardado pelo portador das chaves; ou ainda a de um orixá negro, de arco e flecha, responsável por proteger as matas — talvez não sejam mais do que representações simbólicas — e poderosas — criadas pela humanidade para tentar compreender melhor a si mesma.
Todas essas imagens são arquetípicas. Representam ideais, apontam direções e dialogam com o nosso inconsciente. Talvez não sejam criações conscientes, mas expressões simbólicas de algo mais profundo, que habita em nós e tenta, de alguma forma, se revelar.
Os símbolos, então, não seriam respostas prontas — mas pontes.
Pontes entre aquilo que conseguimos compreender e aquilo que ainda estamos tentando sentir, nomear e integrar.
Diretos e potentes — em certa medida, autoexplicativos —, talvez seja por isso que os seres humanos recorram a eles com tanta frequência.
Nas chamadas escolas de mistérios — grupos formados por pessoas que compartilham saberes esotéricos com quem busca respostas mais íntimas sobre o mundo e sobre si —, muitas vezes se aprende menos pelo conteúdo transmitido e mais pela forma como esse conhecimento se manifesta nas atitudes de quem o vivencia.
Talvez seja justamente por isso que os símbolos nunca sejam totalmente fechados em si.
Lembro-me de que, quando estava na faculdade, estudei, na disciplina de Ciências da Comunicação, a teoria triádica do signo, desenvolvida pelo filósofo e lógico americano Charles Sanders Peirce.
Essa teoria propõe que todo signo envolve três elementos:
1. O próprio signo (ou representâmen) — aquilo que aparece, a forma perceptível do signo; por exemplo, o desenho de uma lua em uma folha;
2. O objeto — aquilo a que o signo se refere; neste caso, o astro que orbita a Terra;
3. O interpretante — o efeito de sentido que esse signo produz na mente de quem o interpreta.
Assim, para Peirce, o signo não funciona sozinho — ele só existe plenamente nesse processo dinâmico entre representação, referência e interpretação. Depende de alguém e do repertório de mundo que esse interpretante possui para ser compreendido à sua maneira.
Nesse sentido, nas próprias escolas de mistérios, os aprendizados parecem se transmitir menos por definições e mais por exemplos vivos — pelas manifestações de virtudes de quem está ali inserido.
Essas pessoas expressam, no cotidiano, atitudes gentis, altruístas, solidárias, amorosas, caridosas, comprometidas, disciplinadas… Fazem de si mesmas símbolos para quem está disposto a observar e a compreender.
De vez em quando, me ocorre que muitos desses mitos podem ter surgido, sim, de estados de consciência provocados pelo uso de substâncias psicodélicas — experiências intensas e, por vezes, alucinógenas que, ainda assim, deram forma a narrativas profundamente simbólicas.
Ainda assim, é interessante notar como, a despeito das formas, as mesmas ideias parecem ser buscadas e expressas ao longo da história.
Na Gnose, por exemplo, há toda uma cosmogênese bastante rica.
Fala-se de um princípio primeiro, silencioso e absoluto — a Mônada. Dela emanaria o Pleroma, a plenitude: um campo de totalidade onde nada falta, nada entra em conflito, nada precisa se afirmar sobre o outro.
Nesse espaço de harmonia, a realidade não surge de forma brusca, mas como um desdobrar contínuo. Da Mônada, emanam os éons — princípios vivos, aspectos fundamentais da existência: mente, verdade, sabedoria, vida, palavra.
Esses éons não existem isoladamente. Manifestam-se em pares, em relações de complementaridade — como profundidade (Bythos) e silêncio (Sige); intelecto (Nous) e verdade (Aletheia); verbo (Logos) e vida (Zoe); homem (Anthropos) e comunidade (Ekklesia) — como se a própria realidade, em sua origem, fosse tecida por vínculos, e não por separações.
E então, dentro dessa ordem sutil, algo se desloca.
Entre os éons, Sophia — a Sabedoria — ocupa um lugar singular. Em algumas narrativas, é ela quem, movida por um impulso de conhecer mais profundamente a origem de tudo, tensiona esse equilíbrio.
É desse movimento — desse excesso, desse descompasso — que surge a ruptura.
E, com ela, uma outra dimensão: o afastamento da plenitude.
Desse afastamento, nasce o que os gnósticos chamam de Kenoma — o vazio, o campo da falta, da fragmentação. É aí que o mundo material passa a existir: não como uma criação perfeita, mas como um reflexo imperfeito.
Nesse cenário, surge também a figura do Demiurgo — o artífice do mundo material, moldando a realidade a partir do caos, convencido de ser o princípio supremo. Um criador que ignora — ou oculta — a existência de algo maior.
Sob essa perspectiva, a experiência humana de falta deixa de ser um acidente psicológico e passa a ser estrutural. Essa sensação insistente de que algo nunca está plenamente no lugar não é falha — é sintoma.
Sintoma de um mundo que já nasce em descompasso.
É no interior do Kenoma — esse campo de fragmentação — que a vida se organiza. E, ainda assim, algo em nós resiste.
Porque carregamos uma centelha esquecida da Mônada.
Uma memória difusa do Pleroma.
Talvez seja por isso que nada satisfaça por completo. Que toda conquista pareça, cedo ou tarde, insuficiente. Que, mesmo nos momentos de plenitude, haja sempre um ruído quase imperceptível — como um eco de algo que não se deixa apreender.
Porque não se trata apenas de desejo.
Trata-se de lembrança.
E, se há lembrança, há também um chamado.
Trata-se de vontade.
Um movimento silencioso de retorno — ainda que não saibamos exatamente para onde.
Para além dessa cosmogênese tão rica, a Gnose também fala de um caminho de retorno.
Um movimento de reascensão.
Em algumas tradições, surge a ideia da Ogdóade — uma espécie de oitava esfera, um campo mais sutil onde a consciência já não se encontra tão fragmentada como no mundo material.
Mas talvez não seja exatamente um lugar. Talvez seja um estado.
Não algo que se acessa como quem chega a um destino, mas algo que se reconhece.
Como se, ao atravessar o ruído do Kenoma, algo em nós começasse, enfim, a se lembrar com mais nitidez.
Não ainda o Pleroma — mas já não mais o esquecimento.
E é curioso perceber como isso ecoa em outras tradições.
No Bhagavad-Gita, por exemplo, Arjuna se vê paralisado diante do conflito, incapaz de agir. É Krishna quem o conduz — não para fora da batalha, mas para dentro de si.
Para um ponto de clareza.
Um centro.
Porque não se trata de negar o mundo, nem de fugir dele — mas de encontrar um lugar interno a partir do qual seja possível agir sem se perder.
Talvez seja esse o verdadeiro movimento.
Não uma fuga do humano,
mas uma integração lúcida do que somos.
Porque, no fim, a fragmentação não está só no mundo.
Ela também nos atravessa.
Somos, ao mesmo tempo, impulso e consciência, desejo e discernimento, matéria e sentido.
E talvez o caminho não esteja em rejeitar nenhuma dessas partes — mas em sustentar o ponto onde todas se encontram sem se anularem.
Um centro silencioso.
Um lugar de onde se vê com mais clareza.
Se isso é a Ogdóade, o Pleroma — ou apenas um estado de presença mais inteiro — talvez importe menos do que a experiência em si.
O que importa é que, de alguma forma, seguimos sendo chamados.
E, mesmo sem entender completamente, seguimos tentando responder.
Vou deixando esses símbolos por aqui, como quem semeia — sem garantia de colheita imediata, mas com a intuição de que algo, em algum momento, há de brotar.
Quando observo meu tratak tibetano, vejo um ponto no centro de um círculo.
Um ponto.
Simples.
E, ainda assim, quase impossível de sustentar.
Há muito se diz — por pensadores, filósofos, espiritualistas, psicólogos — que é preciso encontrar o próprio centro. Mas quase ninguém explica, de fato, o que isso significa.
O desafio não é apenas chegar até ele.
É reconhecê-lo.
E, mais ainda, permanecer.
Porque, no fundo, algo em nós já sabe.
Não é um saber lógico.
Nem discursivo.
É um saber silencioso.
Íntimo.
E presente.
Se preciso nomear, arrisco dizer: esse centro é o coração.
Não como metáfora vazia — mas como experiência.
Como lugar de alinhamento.
De verdade.
De inteireza.
O coração já sabe.
O que falta, muitas vezes, não é resposta —
é coragem para escutá-la.
Clareza para não distorcê-la.
Disciplina para sustentá-la.
Perseverança para vivê-la.
Virtudes simples.
E, justamente por isso, tão exigentes.
Talvez sejam elas — e não teorias complexas — que nos aproximam do que há de mais alto.
Do que, em outras linguagens, chamamos de divino.
No fim, a espiritualidade talvez não esteja nas grandes respostas.
Mas na forma como escolhemos caminhar entre as perguntas.
E, se for assim, então os símbolos cumprem o seu papel:
não nos dar certezas,
mas nos orientar na travessia.
Porque viver — no fundo —
é isso.
Aprender a atravessar.
Com um pouco mais de consciência.
Um pouco mais de presença.
E, se possível,
com o coração no lugar.
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