A evolução espiritual que nos faz amar sem medo.
Cada vez mais, estou convencido de que um dos deveres que todo ser humano tem para consigo é desenvolver seu senso crítico para aprender a se autogovernar, discernindo onde é mais proveitoso investir seu tempo e sua energia e julgando, entre tantas vozes que se repetem no dia a dia, quais delas são verdadeiramente benéficas para o próprio caminho. Além disso, é preciso reconhecer que, sim, sofremos influências dessas vozes e que, vez ou outra, podemos nos enganar quanto aos julgamentos e às decisões que tomamos.
Como já havia dito alguns dias atrás, tenho questionado bastante minha participação na Gnose de Samael. Depois do meu processo iniciático na segunda câmara, passei a participar de ritos de ordem esotérica nos quais me vejo cercado por símbolos ainda por mim desconhecidos e por ideias bastante controversas, especialmente no que diz respeito à prática do arcano AZF, resumidamente descrita como a prática da magia sexual sem a ejaculação.
Segundo essa premissa, a potência criativa do ser humano residiria nas gônadas e, a partir da retenção do líquido seminal ao se aproximar do clímax sexual, tornar-se-ia possível transmutar essa energia por meio dos chacras, direcionando-a para a formação dos chamados corpos solares, compreendidos, dentro dessa tradição, como instrumentos de evolução espiritual.
Confesso que, assim que tomei conhecimento dessa prática, ainda durante a 19ª conferência da gnose samaeliana, fui tomado por muitos questionamentos acerca de sua coerência e de seus fundamentos. Ainda assim, decidi prosseguir com certa suspensão do juízo — não como quem aceita de imediato aquilo que lhe é apresentado, mas como quem escolhe investigar antes de concluir.
Tenho buscado conduzir esse processo da forma que me parece mais honesta: conciliando abertura, exame crítico e prática; tentando sustentar, à maneira socrática, a disposição para interrogar aquilo que escuto, aquilo que experiencio e, sobretudo, aquilo em que começo a acreditar.
Assim, iniciei a prática do arcano com minha namorada, interrompi também o hábito da masturbação e passei a considerar que, se os conhecimentos esotéricos podem conter metáforas capazes de apontar para aprendizados mais profundos do que aqueles que se revelam à primeira interpretação, a retenção do líquido seminal talvez pudesse simbolizar algo além de um procedimento ritual. Talvez representasse o esforço de não reduzir o corpo do outro a um objeto destinado à satisfação de uma função, nem de permitir que a própria luxúria se sobrepusesse à dignidade de quem está diante de nós.
Sob essa perspectiva, o ato sexual desprovido de presença, responsabilidade ou reverência poderia se aproximar daquilo que o decálogo cristão condena ao dizer “não fornicar”: não apenas como proibição moral, mas como advertência contra uma forma de egoísmo em que o outro deixa de ser encontro para tornar-se apenas instrumento.
E foi então que uma pergunta passou a imperar em minha consciência: se amamos, por que é preciso um fim? A resposta que lentamente começou a se formar em mim foi simples: talvez não seja.
Não por acaso, essa compreensão encontra eco em determinadas correntes do tantrismo, para as quais a experiência amorosa não precisa necessariamente culminar no orgasmo para encontrar sentido ou plenitude. A própria gnose samaeliana faz desse princípio um de seus fundamentos, chegando a nomear como “tantrismo negro” a prática em que há entrega ao orgasmo e à liberação seminal.
À medida que fui tomando contato com outros preceitos centrais da gnose samaeliana, meu desconforto passou a crescer. Entre eles, a própria prática do arcano AZF; a estrutura dos chamados três fatores da revolução da consciência — nascer (a formação dos corpos solares), morrer (a eliminação do ego e dos defeitos psicológicos por meio da autoanálise) e sacrificar-se (a propagação da doutrina); e também a noção dos níveis do ser, que propõe uma espécie de hierarquização espiritual da humanidade.
Embora cada um desses ensinamentos seja apresentado dentro de uma lógica própria e coerente com a cosmologia da tradição, passei a perceber que alguns deles parecem favorecer um tipo de separatismo cognitivo, capaz de reforçar tanto um sentimento de elite iniciática quanto um certo afastamento em relação àqueles que permanecem fora desse universo simbólico.
Para tornar mais claro aquilo que desejo expressar com esta reflexão, recorro a uma intuição que reconheço em Plotino: a de que tudo aquilo que separa, na maioria das vezes, tende a nos afastar de algo essencialmente bom. Talvez o verdadeiro exercício espiritual não esteja em aprender a distinguir quem está dentro e quem está fora, quem sabe e quem ignora, mas em aprender a somar.
Relacionar-se com pensamentos e com pessoas a partir daquilo que reconhecemos como o que há de melhor neles talvez seja uma forma mais generosa — e talvez mais verdadeira — de caminhar. Tornar-se capaz de enxergar algo de valioso em cada ser humano e em cada ideia, mesmo quando imperfeitos ou incompletos, parece-me um esforço mais fecundo do que qualquer tentativa de classificação espiritual. Construir pontes afetivas e ideológicas a partir desse eixo de reconhecimento talvez seja, afinal, uma forma mais autêntica de transcendência.
Sendo ainda mais direto em relação à prática do arcano AZF, não consigo deixar de me perguntar sobre o lugar que atribuímos ao prazer dentro da experiência humana. Vivemos em um tempo em que, após séculos de repressão e culpa, muito se tem buscado compreender a sexualidade também como espaço de liberdade, autoconhecimento e reconciliação com o próprio corpo. Nesse contexto, por que deveríamos retornar à ideia de que o sexo não poderia ser vivido, também, como experiência legítima de prazer?
Se a questão central sempre foi o egoísmo, por que não reconhecer, com honestidade, que o desejo existe e aprender a integrá-lo de forma ética e coerente com quem somos? Seria necessário suspeitar do prazer para que uma vivência sexual possa ser considerada espiritualmente válida?
Tenho dificuldade em aceitar que gostar de sentir prazer, desejar o encontro erótico e alcançar o orgasmo possa, por si só, representar algum tipo de inferioridade espiritual. Talvez o verdadeiro desafio não esteja em renunciar ao prazer, mas em aprender a vivê-lo sem transformar o outro em instrumento, sem romper a reciprocidade e sem perder de vista a dignidade do encontro.
Quanto aos fatores da revolução da consciência, devo admitir que reconheço sentido na proposta de eliminação das nossas identidades egoístas por meio da autoanálise, bem como na construção de hábitos mais coerentes com a pessoa que desejo me tornar. Há, sem dúvida, valor na ideia de confrontar nossos automatismos internos e cultivar uma relação mais consciente com aquilo que pensamos, sentimos e fazemos.
No entanto, não me convence a noção de que a readequação da energia sexual, por si só, seja capaz de prover a vontade necessária para a transformação psicológica pretendida. Isso me parece muito mais relacionado ao desenvolvimento da autoconsciência, da responsabilidade ética e da empatia humana do que propriamente ao exercício da sexualidade.
Suspeito, nesse ponto, que haja uma fragilidade na lógica da gnose samaeliana: a de estabelecer uma conexão causal talvez excessiva entre a disciplina sexual e a revolução interior, como se a primeira pudesse, quase automaticamente, conduzir à segunda. Embora o modo como vivemos a sexualidade possa certamente refletir aspectos importantes da nossa consciência, a verdadeira transformação parece depender de algo mais amplo e mais exigente do que isso.
Por último, quanto aos níveis do ser, é preciso reconhecer que existem, sim, diferenças de consciência e de amadurecimento entre os seres humanos. Se há pessoas que ferem deliberadamente os outros — por meio da violência, da mentira, do abuso ou da manipulação — parece razoável admitir que aqueles que conseguem orientar suas vidas por princípios mais éticos tenham alcançado um grau mais elevado de amadurecimento moral.
No entanto, à luz da mesma intuição evocada em Plotino, parece-me problemático transformar essa diferença em critério de distinção espiritual rígida. Há algo que arrisca resvalar em certa vaidade quando se infere que pessoas consideradas em um nível evolutivo inferior devam permanecer afastadas de determinados conhecimentos espirituais.
Não seria mais coerente sustentar justamente o contrário? Se alguém se encontra mais distante daquilo que entendemos como consciência, verdade ou bem, não deveria ser precisamente essa pessoa a merecer maior cuidado, maior acolhimento e maior acesso àquilo que poderia ajudá-la a se transformar?
Se o conhecimento espiritual tem algum valor genuíno, talvez ele devesse servir menos para distinguir os que supostamente já despertaram e mais para iluminar caminhos para aqueles que ainda procuram, muitas vezes sem sequer saber o que procuram.
Ao fim desta reflexão, compreendo que toda busca espiritual digna desse nome deve ampliar nossa humanidade, e não estreitá-la. Se um caminho exige que eu silencie meu discernimento, suspeite do prazer como se ele fosse, em si, uma ameaça, ou aceite qualquer forma de distinção que enfraqueça minha capacidade de reconhecer a dignidade do outro, então é preciso interromper e perguntar, com coragem, se ainda estou caminhando em direção à verdade ou apenas aprendendo a obedecer a uma nova forma de medo. Nenhuma promessa de elevação espiritual pode justificar o enfraquecimento da lucidez, da liberdade interior ou da abertura afetiva que nos torna verdadeiramente humanos.
Sigo convencido de que a consciência não se expande quando nos afastamos daquilo que somos, mas quando nos tornamos capazes de habitar nossa experiência com mais presença, mais responsabilidade e mais honestidade. Integrar desejo, razão, fragilidade e transcendência me parece um trabalho mais difícil — e, justamente por isso, mais verdadeiro — do que qualquer tentativa de purificação fundada na negação de partes inteiras da existência. Se há algo de sagrado na busca espiritual, ele se revela precisamente quando o conhecimento nos torna menos fascinados por hierarquias invisíveis e mais comprometidos com aquilo que pode ser vivido, partilhado e reconhecido como bem entre nós.
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