Ainda em Movimento.

Existem períodos da vida em que seguimos caminhando mais por decisão do que por força.

Não porque a clareza tenha finalmente chegado.

Não porque a esperança esteja particularmente vibrante.

Mas porque, de algum modo, aprendemos que interromper completamente a travessia também tem um custo.


Nestes últimos dias, tenho buscado sustentar esse movimento enquanto caminho em direção a uma nova recolocação profissional e, ao mesmo tempo, procuro continuar me desenvolvendo como ser humano — seja no campo filosófico, nas relações sociais, no cuidado com a saúde ou no exercício de uma vida mais consciente e responsável.

Ainda assim, confesso: estou cansado.

Às vezes, torna-se difícil enxergar os pontos positivos ou mesmo reconhecer as transformações que já aconteceram em mim ao longo dessa trajetória. Em certos momentos, me pergunto se não alimentei expectativas altas demais, se não depositei energia excessiva na esperança de alguma força milagrosa, de alguma forma de magia capaz de reorganizar aquilo que ainda parece suspenso — ou se estou apenas sendo impaciente diante do tempo e dos seus próprios ritmos.

O fato é que o tempo está passando.

Tenho a perspectiva de começar a trabalhar no dia 25 de junho, mas, por ora, continuo habitando esse espaço incerto entre o que terminou e aquilo que ainda não começou plenamente.

Parte de mim tem buscado abrigo em pequenas formas de encantamento. Entre uma preocupação e outra, tenho assistido aos episódios de Witch Hat Atelier, Jujutsu Kaisen e Hilda Furacão.

Existe algo de significativo nesses desejos aparentemente pequenos.

Em Witch Hat Atelier, Coco é uma menina comum que sonha em aprender magia, até descobrir que aquilo que parecia um dom reservado a poucos também depende de estudo, disciplina e responsabilidade. Sua jornada começa justamente quando algo sai do controle: ao acessar um conhecimento que não compreendia plenamente, ela acaba petrificando a própria mãe. A partir desse momento, o que parecia ser apenas uma história sobre encantamento revela algo mais profundo: uma narrativa sobre as consequências do desejo diante de um poder para o qual ainda não se está preparado.

Existe algo de muito simbólico nessa queda inicial. Coco se aproxima da magia quase como uma criança diante de um fruto proibido — fascinada, encantada, movida por um desejo legítimo de conhecer, mas ainda incapaz de compreender o peso daquilo que toca. A tragédia, nesse sentido, não surge porque o conhecimento seja mau em si, mas porque certos saberes exigem maturidade, contexto e responsabilidade.

A imagem de sua casa após o acidente — cercada por espinhos, interditada, transformada num espaço ao mesmo tempo familiar e inacessível — me parece especialmente poderosa. Como se o lugar da infância, da inocência e da segurança tivesse se tornado um paraíso perdido. A jornada de Coco passa, então, a carregar também essa dimensão de restauração: salvar a mãe, compreender o que aconteceu, tentar recuperar aquilo que foi rompido. Mas há uma verdade intrínseca e velada permeando esse movimento: depois que se conhece, já não é possível des-conhecer. Não se retorna intacto ao estado anterior.

Ao lado dela está Qifrey — um mestre brilhante e enigmático, cuja própria história parece marcada por feridas, mistérios e um profundo senso de responsabilidade diante do poder que carrega. Existe algo reconfortante nessa relação entre aprendiz e mestre, entre encantamento e técnica, entre desejo e maturidade. A magia, ali, nunca parece ser apenas poder; ela é também ética, contenção e discernimento.

Não bastasse tudo isso, há ainda outra tensão fascinante no universo da obra: de um lado, aqueles que defendem que a magia deve permanecer oculta, protegida, transmitida apenas aos que estão preparados; de outro, aqueles que desejam libertar esse conhecimento, torná-lo acessível a todos, ainda que isso traga caos e imprevisibilidade. Nenhum dos lados parece inteiramente puro. Todo este conjunto faz pensar que parte da maturidade consiste justamente em reconhecer que nem todo conhecimento deve ser negado, mas que nem toda verdade pode ser entregue sem preparo.

Percebo que parte de mim também está tentando aprender a lidar, com mais consciência, com aquilo que ainda não consigo compreender totalmente em mim mesmo: o desejo de transformação, a responsabilidade diante das próprias escolhas e a difícil tarefa de aceitar que certas travessias nos mudam de forma irreversível.

Em Jujutsu Kaisen, Yuji Itadori passa a conviver com Ryomen Sukuna, uma poderosa maldição que habita seu próprio corpo. Sua existência passa a ser atravessada por uma tensão permanente: como continuar sendo si mesmo enquanto carrega dentro de si algo tão sombrio? Os feiticeiros jujutsu aprendem justamente a manipular a energia amaldiçoada — energia que nasce do medo, da dor, da raiva e das emoções negativas humanas — para enfrentar as próprias maldições que dela surgem. Há uma sabedoria simbólica poderosa nisso: aprender a transformar em ferramenta aquilo que antes parecia apenas ameaça.

Parte do amadurecimento humano parece consistir exatamente em deixar de fugir das próprias sombras e aprender a conviver com elas sem permitir que assumam o comando.

Já em Hilda Furacão, a travessia parece ainda mais humana e ambígua. Hilda abandona uma vida que parecia traçada para ela e mergulha numa existência que escandaliza todos ao seu redor. Ao mesmo tempo, frei Malthus se vê profundamente abalado pelo desejo que ela desperta nele. A tensão entre os dois toca algo essencial: o conflito entre ideal e corpo, entre pureza e paixão, entre aquilo que desejamos transcender e aquilo que insiste em nos lembrar que somos humanos.

Ninguém atravessa a vida sem precisar encarar esse tipo de contradição.

Percebo agora que essas histórias estão me chamando porque, cada uma à sua maneira, falam de forças interiores difíceis de controlar: o poder, a sombra, o desejo.

A vida interpela: você já aprendeu a sustentar tensões sem precisar resolvê-las imediatamente?

Aceitar que nem toda transformação acontece de forma visível?

Que nem toda travessia é heroica?

Que nem toda espera é vazia?

Existe maturidade em reconhecer que o crescimento nem sempre se manifesta como conquista; às vezes, ele se apresenta simplesmente como permanência. Como a capacidade interna de continuar. Continuar com a busca por trabalho. Continuar com o cuidado com o corpo. Continuar a estudar. Continuar a desejar. Continuar com a preservação de alguma delicadeza diante de um mundo que tantas vezes nos endurece.

Há uma forma de coragem menos espetacular e mais cotidiana: a coragem de não desistir de si mesmo enquanto nada parece acontecer do lado de fora.

Preservar pequenos encantamentos também pode ser uma forma de resistência.

Assistir a uma história, emocionar-se com personagens fictícios, reconhecer-se em suas quedas, em suas sombras, em seus desejos — tudo isso também pode ser uma maneira de permanecer vivo interiormente enquanto o restante ainda se reorganiza.

Porque, no fundo, crescer parece ter menos relação com controlar a vida e mais com aprender a atravessá-la sem perder completamente a capacidade de se encantar.

Se isso for verdade, então estou menos perdido do que imagino.

Estou apenas entre capítulos.Ainda cansado.

Ainda esperando.

Ainda aprendendo.

Mas, de algum modo, ainda em movimento.

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