Clareza sem ação: apenas mais um esconderijo sofisticado.
Este é um espaço onde me permito existir em palavras.
Escrevo sobre o que me atravessa — o que sonho, penso, sinto, desejo e faço. É aqui que busco alguma forma de clareza, talvez até de orientação.
Mas também é um lugar ambíguo.
Há momentos em que me orgulho do que encontro aqui. Em outros, é refúgio — um abrigo improvisado para aquilo que ainda não sei nomear ou enfrentar no dia a dia.
A verdade, sem floreios, é que hoje não estou bem.
Gostaria de ser mais útil para a sociedade. De estar trabalhando. De estar mais próximo do meu filho. Gostaria, inclusive, de não sentir essa necessidade quase compulsiva de falar de mim — ainda que seja só para mim mesmo.
E há mais uma verdade, tão incômoda quanto as outras:
tenho dividido com outros textos que deveriam, antes, ferver apenas no meu próprio caldeirão.
No fundo, a pergunta não é apenas sobre o que dizer —
mas sobre como transformar tudo isso em algo que vá além de mim.
Porque, no fim das contas,
até quando vou recorrer a distrações e refúgios confortáveis — como assistir Jujutsu Kaisen 0, mergulhar em eventos nerds, viagens, leituras (filosóficas, espirituais ou de autoconhecimento) ou depender de apoios externos — para me autorregular?
E, mais importante do que isso:
o que, de fato, estou disposto a construir a partir daqui?
Olhando com mais honestidade, percebo que não é falta de capacidade —
é excesso de consciência sem canal de ação.
E é isso que vem me mantendo paralisado. Talvez essa seja, hoje, a minha roda de Samsara.
Já fui capaz de nomear o que me incomoda.
Agora, preciso transformar essas dores em movimento concreto.
Porque clareza sem ação vira apenas mais um esconderijo sofisticado.
O que me atravessa é simples, ainda que difícil de sustentar:
· a sensação de inutilidade — quero contribuir mais;
· a ausência de trabalho — que afeta diretamente minha identidade e rotina;
· a distância do meu filho — e isso pesa de verdade.
Tenho me observado demais e agido de menos.
Esse ciclo de sentir, refletir, escrever, aliviar e recomeçar já não me serve mais.
Falta o último passo: agir — mesmo sem estar pronto.
Não preciso me entender mais para agir.
Lembro de uma história:
um buscador encontrou um sábio no alto de uma montanha e perguntou qual era o segredo da iluminação. Sem obter resposta, decidiu permanecer ali e meditar ao seu lado. Anos se passaram. O sábio morreu sentado. O buscador continuou. Anos depois, também morreu. No mesmo lugar.
Fica a pergunta:
em que momento, exatamente, algum deles viveu?
Talvez o erro não estivesse na busca —
mas na ausência de movimento para além dela.
E, se isso for verdade, então a resposta deixa de ser filosófica
e passa a ser prática:
eu preciso sair da montanha.
Hoje eu escolho agir.
Envio candidaturas.
Dou um passo – mais um telefonema – para o meu filho.
E escolho agir, mesmo quando for mais fácil me esconder em distrações.
Sem garantias.
Sem desculpas.
Com movimento.
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