Há Professores Que Permanecem.

Estou me preparando para uma entrevista de emprego e, enquanto organizo ideias sobre minha trajetória profissional, percebo que algumas experiências dizem muito mais sobre quem somos do que qualquer cargo listado em um currículo. Em momentos assim, sinto necessidade de revisitar lembranças que me devolvam senso de direção, confiança e propósito — não apenas para impressionar um entrevistador, mas para me reconectar com aquilo que considero genuinamente valioso em minha caminhada.


Entre essas lembranças, uma das mais significativas foi o momento em que recebi meu certificado de conclusão do curso Filosofia para Viver, da Nova Acrópole. Curiosamente, essa lembrança não surgiu por acaso nem por simples romantização retrospectiva. Eu já desejava escrever sobre essa experiência havia algum tempo, justamente porque ela marcou um período importante de reorganização interior, reflexão e amadurecimento pessoal.

Também comecei a pensar em como gostaria de agradecer, pessoalmente, àqueles que me apoiaram e orientaram ao longo dessa jornada — especialmente ao André, meu professor, cuja dedicação, inteligência e humanidade marcaram profundamente minha experiência no curso.

Ao longo das aulas conduzidas por ele, fomos apresentados a uma visão da filosofia muito diferente daquela tradicionalmente associada apenas à teoria acadêmica ou ao estudo abstrato de autores clássicos. O André dizia frequentemente que filosofia não deveria permanecer confinada aos livros ou às discussões intelectuais. Para ele, a verdadeira filosofia precisava atravessar a vida concreta. Precisava transformar a maneira como pensamos, agimos, convivemos e interpretamos o mundo.

Talvez tenha sido justamente isso que mais me impactou: a sensação de que aquelas ideias não estavam sendo apresentadas apenas para serem compreendidas intelectualmente, mas para serem vividas.

Uma das primeiras reflexões que permaneceram em mim foi a noção de evolução humana como um processo consciente. Não uma mudança automática ou aleatória, mas uma construção contínua que exige direção, intenção e responsabilidade pessoal. Durante as aulas, o André insistia muitas vezes na ideia de que a consciência deveria ocupar o centro dessa jornada.

Segundo ele, filosofar significava buscar compreender quem somos para além das aparências sociais, dos impulsos imediatos, das distrações cotidianas e das respostas prontas oferecidas pelo mundo moderno.

Com o tempo, comecei a perceber o quanto grande parte da nossa vida é conduzida por automatismos. Reagimos emocionalmente sem perceber, repetimos hábitos inconscientes, buscamos distrações constantes e, muitas vezes, vivemos no piloto automático. Aos poucos, a filosofia deixou de soar para mim como um exercício puramente intelectual e começou a assumir um significado mais íntimo: aprender a viver de maneira menos mecânica e mais consciente. Deixar de tentar ser perfeito apenas para caber nas expectativas dos outros.

Durante os módulos iniciais, refletimos sobre três grandes dimensões da existência humana: o conhecimento de si mesmo, as relações sociais e a nossa interação com a natureza e com o mundo. A partir dessas bases, estudamos temas ligados à ética, sociopolítica e filosofia da história, sempre tentando compreender como esses conceitos poderiam se manifestar concretamente na vida prática.

Uma distinção particularmente marcante foi a diferença entre personalidade e alma. O André nos explicou que a personalidade seria um instrumento transitório — composto pelo corpo, pelas emoções, pelos hábitos, pela energia e pela mente — enquanto a alma representaria aquilo que existe de mais essencial e permanente no ser humano. Ele repetia frequentemente que o objetivo não era negar a personalidade, mas educá-la e organizá-la para que deixasse de funcionar apenas de maneira automática ou impulsiva.

Essa ideia dialogava diretamente com outra reflexão recorrente ao longo das aulas: a maneira como a mente humana opera através dos opostos e como, sem algum grau de educação interior, acabamos sendo facilmente conduzidos por medos, desejos, paixões, inseguranças e manipulações emocionais. Foi interessante perceber que, naquele contexto, a filosofia não aparecia apenas como produção intelectual, mas como prática concreta de transformação pessoal.

O André também insistia bastante na diferença entre teoria, conhecimento e sabedoria. Na época, aquilo parecia apenas uma distinção conceitual interessante. Hoje percebo que essa ideia permaneceu comigo de maneira muito mais profunda. Entender algo intelectualmente é relativamente simples; difícil é transformar compreensão em prática cotidiana. Mais difícil ainda é permitir que certas ideias alterem genuinamente nossa maneira de agir, reagir e perceber o mundo.

As aulas também enfatizaram profundamente a importância das virtudes humanas. Coragem, disciplina, constância, prudência, generosidade, fraternidade e senso de responsabilidade foram frequentemente apresentados não como qualidades idealizadas, mas como capacidades que precisariam ser desenvolvidas conscientemente. O André reforçava muitas vezes que a educação filosófica não deveria servir apenas para acumular informações, mas para despertar potenciais humanos frequentemente adormecidos pela rotina, pela superficialidade e pela mecanização da vida contemporânea.

Conforme o curso avançou, algumas reflexões começaram a ultrapassar o espaço das aulas. A ideia de que ninguém evolui sozinho, por exemplo, tornou-se particularmente significativa para mim. Cada encontro humano carrega a possibilidade de aprendizado, porque cada pessoa enxerga a realidade a partir de experiências, dores e limitações diferentes. Aos poucos, comecei a perceber o quanto muitas transformações pessoais nascem justamente do contato sincero com o outro.

Talvez por isso a fraternidade tenha deixado de soar para mim como uma palavra abstrata ou excessivamente idealista. Durante as aulas, compreendi que conviver verdadeiramente exige esforço consciente: aprender primeiro a tolerar, depois a respeitar e, finalmente, reconhecer virtudes até mesmo em pessoas muito diferentes de nós. Essa percepção me marcou profundamente porque desloca a fraternidade do campo do sentimentalismo e a coloca no campo da construção humana cotidiana.

Ao mesmo tempo, as falas do André carregavam uma crítica intensa ao estado atual da sociedade. Segundo ele, estamos na Era de Ferro, e vivemos um processo de enfraquecimento civilizatório marcado pela perda de valores fundamentais. Em vez disso, predominariam relações utilitárias, individualismo, manipulação emocional e desconfiança permanente.

Mais do que uma crítica política, porém, o diagnóstico apresentado era sobretudo educativo. Durante as aulas, ele insistia diversas vezes na ideia de que uma sociedade saudável depende inevitavelmente de um processo consistente de formação humana. Sem educação interior, dizia ele, as pessoas tornam-se facilmente manipuláveis, vulneráveis a discursos superficiais e incapazes de refletir criticamente sobre a própria realidade.

Foi nesse contexto que a filosofia apareceu para mim como uma tentativa de reconexão com os ritmos naturais da vida. O André falava frequentemente sobre ciclos: dias e noites, estações, períodos de recolhimento e momentos de expansão. Segundo ele, o ser humano moderno vive profundamente desconectado desses movimentos naturais e, por isso, perde gradualmente sua capacidade de equilíbrio interior.

Um conselho aparentemente simples acabou permanecendo comigo de maneira muito forte: planejar conscientemente o dia seguinte e revisar interiormente aquilo que foi vivido ao final do dia. Embora parecesse apenas uma sugestão banal de organização pessoal, comecei a entender a profundidade daquela proposta. Tratava-se, na verdade, de substituir automatismos por consciência deliberada.

Outro aspecto bastante interessante do curso foi a ideia de que a natureza possui uma linguagem simbólica própria. O André explicou que os antigos sábios não dependiam apenas de livros para compreender a realidade; aprendiam observando diretamente os símbolos presentes na própria vida. Ele chegou a dizer que, mesmo que todos os textos fossem destruídos, a sabedoria poderia ser reencontrada, porque sua fonte verdadeira estaria inscrita nas leis naturais e na experiência humana.

Dentro dessa visão, surgiram os quatro grandes ideais humanos defendidos por Platão: o bem, a verdade, a justiça e a beleza. Cada um deles corresponderia historicamente a diferentes expressões da cultura humana. A religião buscaria o bem; a ciência, a verdade; a política, a justiça; e a arte, a beleza. Quando essas dimensões se desequilibram ou se corrompem, dizia nosso professor, toda a civilização adoece.

Algo também bastante interessante foi o fato de que nunca nos foi exigida crença cega. O que acontecia era justamente o oposto: o André sempre insistia na importância da investigação. Segundo ele, existiriam duas deformações igualmente perigosas: a devoção sem investigação, que conduz ao fanatismo, e a racionalidade sem abertura ao mistério, que transforma o pensamento em algo estéril.

Ao longo das aulas, comecei a perceber que talvez a principal proposta da escola não fosse oferecer respostas definitivas, mas ensinar a conviver melhor com perguntas fundamentais:

Quem somos? O que significa viver bem? Existe propósito? Como desenvolver consciência em um mundo tão acelerado, fragmentado e distraído?

Essas perguntas não desapareceram depois das aulas. Desde então, passaram a me acompanhar.

Em determinado momento, o André fez uma crítica bastante dura ao modelo contemporâneo de educação e trabalho. Segundo ele, muitas virtudes humanas foram reduzidas a competências produtivas ou skills voltadas exclusivamente ao desempenho econômico. O problema dessa lógica, afirmava, é que ela transforma o ser humano em ferramenta descartável: útil enquanto produz, facilmente substituível quando deixa de gerar lucro.

Confesso que esse trecho me marcou profundamente, especialmente por dialogar diretamente com experiências profissionais que vivi ao longo dos anos. Talvez por isso essa lembrança venha justamente agora, enquanto me preparo para uma nova entrevista. Porque, no fundo, o curso me levou a refletir não apenas sobre carreira, mas sobre valor humano, propósito e coerência.

Nos momentos finais da última aula do curso, a atmosfera se tornou ainda mais afetiva. O André descreveu a escola filosófica como uma espécie de comunidade de amizade baseada não apenas em interesses imediatos, mas em afinidades interiores mais profundas. Falou sobre confiança, lealdade e sobre a importância de manter viva a esperança de que o ser humano ainda é capaz de construir relações genuínas.

Um dos trechos mais curiosos foi quando ele falou sobre os animais, especialmente os cães, como exemplos de fidelidade e amor sem cálculo. Segundo ele, muitos seres humanos perderam a capacidade de confiar uns nos outros, enquanto os animais ainda expressariam uma forma mais pura de vínculo afetivo. Era impossível não perceber ali não apenas uma teoria filosófica, mas também uma sensibilidade humana sincera, que tornava suas palavras ainda mais marcantes.

E me pergunto, até agora, se aquilo não foi também uma resposta indireta a uma pergunta que fiz de maneira bastante inocente: “André, para que possamos ter uma referência do que nos espera nas próximas etapas do curso, o que, sob a sua ótica, mudou nas pessoas que decidiram perseguir os ideais de uma vida filosófica na Nova Acrópole?”

Ele respondeu dizendo que, para os animais, os seres humanos seriam como deuses — e talvez por isso demonstrassem tanta admiração e fidelidade. Depois acrescentou que deveríamos nos envergonhar por alimentar a desconfiança, resultado das constantes traições aos valores e àquilo que existe de mais íntimo e verdadeiro na natureza humana.

Até hoje me pergunto se, no fundo, ele estava apenas dizendo: “Sérgio, confia na gente. Nós realmente queremos o seu bem.”

Ao final daquela experiência, fiquei com a sensação de que a filosofia, quando vivida de forma prática, não oferece necessariamente certezas absolutas — mas oferece direção. E talvez direção seja exatamente aquilo que mais falta em períodos de transição.

Neste momento, enquanto revisito essas lembranças antes de uma entrevista de emprego, percebo que o orgulho que sinto não está apenas no certificado recebido. Está principalmente na experiência humana que vivi ao longo desses meses. O que levo comigo não é somente um conjunto de conceitos filosóficos, mas um processo de transformação silenciosa que me fez refletir com mais profundidade sobre responsabilidade, caráter, convivência, disciplina, escuta, consciência e propósito.

Sei que uma vaga profissional exige competências técnicas, experiência e resultados concretos. Mas acredito também que empresas são feitas de pessoas — e pessoas são feitas de valores, relações e consciência. Talvez aquilo que eu mais queira transmitir ao entrevistador não seja apenas eficiência operacional, mas a disposição sincera de continuar aprendendo, evoluindo e construindo relações baseadas em ética, responsabilidade e confiança.

No fim, uma das maiores lições que levo dessa experiência é simples: filosofia não é apenas algo que se estuda. É algo que, aos poucos, começa a atravessar a maneira como vivemos e os nossos corações. E eu quero continuar nesse caminho, por tempo indeterminado, enquanto fizer sentido — quem sabe, para sempre?

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