O que hoje insiste em não se explicar.

Olha que curioso — e, de certa forma, profundamente simbólico: ontem recebi a confirmação de que, a partir de 25 de junho, retornarei à campanha de kits natalinos da MBRF. E hoje, em um mesmo ponto no tempo, se cruzam camadas de significado: é lua de Vesak, é 1º de maio — dia do trabalhador —, é também o dia em que inicio minha jornada na segunda câmara da Gnose… e marca 31 anos da partida do meu pai.


Como se diferentes ciclos — profissionais, espirituais e pessoais — se cruzassem de um jeito difícil de ignorar, dando ao hoje um peso que vai muito além de um simples dia no calendário.

E, ainda assim, junto dessa percepção, surge um incômodo sutil: uma sensação de que há um sentido maior tentando se revelar — mas que ainda me escapa. Não consigo acreditar plenamente no acaso; “sorte”, “azar” e o próprio acaso me parecem apenas nomes que damos ao que ainda não compreendemos.

Talvez o desconforto venha justamente daí: reconhecer que o dia carrega algo especial… e, ao mesmo tempo, não conseguir traduzi-lo em palavras ou entendimento.

É justamente por isso que começo a escrever — como quem observa com atenção essa estranha (e talvez inconveniente) presença que me interpela e provoca: “seu cabeça de minhoca… o que é que você está deixando escapar?”

Na tentativa de tensionar essa busca, recorro novamente a Friedrich Nietzsche — um filósofo que, anos atrás, me lançou à beira de um certo abismo, mas também a um movimento de desenvolvimento interno em direção ao Übermensch (o “além-do-homem”).

Na contramão de uma longa tradição filosófica e espiritual — que veria no acaso apenas um nome provisório para aquilo que ainda não foi compreendido — Nietzsche opera uma ruptura.

Para ele, a ideia de que “nada é por acaso” pode ser perigosa, pois facilmente se transforma na necessidade de encontrar um sentido oculto em tudo, como se o mundo carregasse uma intenção por trás dos acontecimentos.

Ele diria, em essência: o mundo não possui um significado pré-dado; “sorte”, “azar” e “acaso” não são falhas de compreensão, mas expressões da própria realidade; e a busca insistente por um sentido escondido pode, no fundo, ser uma forma de fuga diante do caos da existência.

Porque, no fundo, tenho buscado desenvolver um senso crítico que seja verdadeiramente meu — não herdado, mas construído a partir das minhas próprias observações, experiências e convicções. Como já disse outras vezes, tenho andado à procura da minha própria voz.

Então, diante de ideias tão antagônicas, me pergunto: quem é que está certo nessa história toda?

O próprio Nietzsche também propõe algo de grande beleza: o Amor fati — o amor ao destino.

Em outras palavras: pouco importa se há um sentido oculto ou não; o desafio é afirmar o momento como se ele fosse necessário, como se você o tivesse escolhido. Apropriar-se do presente — tal como ele é — talvez seja, afinal, a forma mais radical de dar sentido àquilo que ainda não compreendemos.

Ainda diante desse cenário, busco um recurso que, para mim, costuma funcionar na maioria das vezes: o holismo — a ideia de que um sistema só pode ser plenamente compreendido quando olhamos para o todo, e não apenas para suas partes isoladas.

Mas, desta vez, não quero usar essa ideia como uma resposta pronta. Quero tratá-la como um convite à observação. Em vez de tentar explicar o que o dia significa, talvez eu precise primeiro aprender a acolher a experiência como ela se apresenta — sem apressar interpretações, sem forçar conclusões.

Se há, de fato, algo se revelando nesse entrelaçamento de acontecimentos, talvez isso não se entregue ao esforço direto de compreensão, mas a um tipo diferente de atenção — mais serena, mais confortável e mais paciente.

Então, em vez de encerrar essa reflexão, escolho permanecer nela. Observar os desdobramentos deste dia, perceber o que ele mobiliza em mim, acompanhar os ecos que talvez ainda estejam por surgir.

Quem sabe o sentido não esteja em algum ponto fixo a ser alcançado… mas no próprio movimento de investigá-lo.

Então, me proponho a observar como eu e o dia nos comportaremos — mas não sem antes buscar compreender as origens e os motivos pelos quais essas datas são celebradas.

A lua de Vesak — ou Vesak — tem suas raízes no termo “Vaisakha”, do sânscrito, que designa o mês lunar em que, segundo a tradição budista, teriam ocorrido três eventos fundamentais na vida de Siddhartha Gautama: seu nascimento, sua iluminação e sua morte (parinirvana). Celebrado na lua cheia desse período, o Vesak não marca apenas uma lembrança histórica, mas simboliza um ciclo completo de transformação — do surgimento à transcendência. Ao me deparar com essa data, não posso deixar de perceber um paralelo com o que vivo hoje: uma sobreposição de começos, encerramentos e possíveis renascimentos — ainda que eu não compreenda totalmente o que, em mim, está sendo convidado a se transformar.

Já o Dia do Trabalho, celebrado em 1º de maio, tem uma origem mais concreta, mas não menos simbólica. Sua raiz remonta às lutas operárias do século XIX, especialmente à greve de trabalhadores em Chicago, em 1886, que culminou no episódio conhecido como Haymarket Affair. Com o tempo, a data foi reconhecida internacionalmente como um marco das conquistas e das tensões do mundo do trabalho. Etimologicamente, “trabalho” vem do latim tripalium, um instrumento de tortura — o que por si só já revela uma história marcada por esforço, dor e transformação. E, no entanto, hoje, ao coincidir com um possível recomeço profissional em minha própria trajetória, essa data parece ganhar uma camada adicional: como se me convidasse não apenas a refletir sobre o trabalho enquanto obrigação, mas também como expressão, construção e, quem sabe, propósito.

O falecimento do meu pai, que ocorreu em 1º de maio de 1995 — um ano após a morte do ídolo dele, Ayrton Senna, na fatídica curva de Imola, na Itália —, por sua vez, representa, para mim, o fim de uma infância. Tive de aprender cedo a assumir uma postura mais madura — ou, ao menos, foi essa a ideia que me foi transmitida: a de que eu precisava ser o arrimo da família, por ser o homem mais velho da casa, e ajudar a minha mãe. Assim, fui — e tenho tentado ser — o “bom moço”. Procuro manter viva a lembrança do meu pai com carinho, sem me vitimizar. Repito para mim mesmo: “as escolhas do meu pai não me definem”; sou o meu próprio pai; sou um adulto que respeita a si mesmo, seus compromissos e responsabilidades, e busco ser um bom pai para o meu filho. Assim, o significado que atribuo a esse momento é o de um marco na minha entrada na vida adulta — ainda que eu siga descobrindo, aos poucos, o que isso de fato significa.

Quanto à iniciação na Gnose, a ideia é, em certa medida, autoexplicativa: por se tratar de um começo, é a própria jornada que dirá por si. Ainda assim, ela vem acompanhada da expectativa de transformação — de me tornar alguém melhor. Alguém que sonhe, pense, sinta, aja e se comporte de acordo com a própria vontade. Venho repetindo essas palavras como um mantra, na tentativa de me manter atento aos meus próprios ideais e de impulsionar os objetivos que desejo alcançar: ser um bom pai; contribuir de forma positiva com a sociedade; ser útil; conhecer os mistérios que o mundo mantém velados; construir um lar, uma família; e, sobretudo, ser capaz de reconhecer e agradecer pelo que já tenho. Entender, pouco a pouco, de que maneira posso exercer o meu próprio poder.

Quanto ao meu retorno à MBRF, posso dizer, com honestidade: apesar de não ser um trabalho com grande remuneração, foi muito bom ter feito parte daquela equipe no ano passado. O simples fato de estar empregado me permitiu chegar até aqui — lúcido, escrevendo. Permitiu que eu cumprisse minhas responsabilidades com o Nicolas, com a Fernanda e comigo mesmo. Me permitiu almoçar com amigos, celebrar pequenas conquistas, sentir pertencimento, me orgulhar das vitórias cotidianas. E sair de lá de cabeça erguida — para agora retornar, justamente em um momento em que eu começava a duvidar de mim mesmo.

Embora eu saiba que não preciso de validação externa para seguir o caminho que escolho trilhar todos os dias, não posso negar: é bom reencontrar rostos conhecidos. É bom perceber que o meu esforço foi reconhecido — e, mais do que isso, valorizado.

No fim das contas, entre morte, iluminação e renascimento — essa espécie de jornada do herói que atravessa o drama da vida —, o dia de hoje me parece, antes de tudo, um convite: agradecer e viver da forma que me for possível.

Com um sincero muito obrigado. Shanti, Shanti, Shanti.

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