Parte IV: O Dia em que a Luz se Partiu.


Pouco depois das quinze horas, alguém bateu à porta do apartamento.

Henry despertou antes mesmo de compreender por quê, arrancado do sono por aquela sucessão de impactos secos contra a superfície inteligente da entrada — três batidas apenas, mas suficientemente urgentes para atravessar o amortecimento acústico do ambiente e dissolver, num instante, a frágil paz química que o descanso havia lhe concedido.

Durante alguns segundos permaneceu imóvel, ainda preso àquela zona indistinta entre sonho e consciência em que o mundo demora a reassumir sua forma definitiva. O quarto permanecia mergulhado em penumbra; as paredes translúcidas mantinham ativado o filtro opaco contra a claridade exterior, e os sistemas domésticos ainda respiravam no modo silencioso que Nathalie costumava preferir.

Por um breve instante, tudo estava intacto.

A cama ampla.

O cheiro residual do perfume dela preso ao tecido do travesseiro.

A pequena mochila holográfica de Sophia esquecida junto à poltrona na noite anterior, com um dos adesivos luminosos ainda pulsando fracamente sobre o revestimento.

Então vieram as batidas outra vez.

Henry sentou-se depressa, sentindo o peso de uma exaustão que ainda não havia deixado seu corpo. Tinha voltado da Eidolon pouco antes das dez da manhã, depois de atravessar mais uma madrugada inteira ao lado de Nathalie na Câmara Central, acompanhando os testes de estabilização do núcleo ampliado de Mana que sustentaria a nova fase do Ascension Protocol. Estavam perto demais de alguma coisa importante para que qualquer um dos dois conseguisse admitir cansaço. Pela primeira vez em muitos meses, havia permitido a si mesmo uma forma perigosa de esperança.

Vestiu o sobretudo técnico quase sem perceber os próprios movimentos e atravessou o apartamento enquanto os sistemas despertavam ao seu redor. Interfaces translúcidas se acenderam discretamente sobre as paredes. Um painel suspenso projetou notificações não lidas. Chamadas perdidas da Eidolon. Alertas internos. Protocolos interrompidos.

Algo estava errado.

Ao abrir a porta, encontrou um jovem técnico da corporação parado no corredor suspenso do edifício residencial. O rapaz havia corrido. A superfície de sua pele sintética brilhava sob a camada fina de chuva que atravessara as barreiras atmosféricas do nível residencial, e sua interface ocular ainda pulsava em vermelho de emergência.

— Doutor Valen… houve uma falha na Câmara Central.

Henry franziu a testa imediatamente.

A palavra falha era pequena demais.

— Que tipo de falha?

O técnico hesitou.

E foi essa hesitação — mais do que qualquer resposta — que abriu a primeira fissura real dentro dele.

— Ainda não sabemos.

Nada sobre incêndio.

Nada sobre ruptura.

ada sobre sobrecarga de Mana.

Nada sobre Nathalie.

Nada sobre Sophia.

Apenas isso.

Uma falha.

A linguagem ainda tentava conter aquilo que já havia começado.

Henry afastou-se do rapaz e aproximou-se da parede de vidro da sala. Com um gesto automático, dissolveu a opacidade da superfície.

A cidade surgiu diante dele.

E a Eidolon ardia.

Não como um edifício iluminado.

Não como uma torre em funcionamento.

A torre brilhava como uma ferida aberta no próprio tecido do mundo.

Uma luminosidade impossível erguia-se da porção superior da estrutura e espalhava-se pelas Alturas Brancas. O céu estava rasgado de dentro para fora. Correntes de Mana escapavam da torre em espirais violentas, já sem qualquer obediência à geometria previsível das conduções estabilizadas. Subiam e desciam simultaneamente. Enrolavam-se umas nas outras. Mudavam de cor em padrões que nenhum protocolo conhecia.

Azuis profundos.

Violetas densos.

Filamentos dourados tão brilhantes que feriam a retina.

Partículas luminosas flutuavam sobre a cidade.

Não fumaça.

Não cinza.

Fragmentos delicados.

Pólen.

Neve.

Pequenas estrelas morrendo lentamente antes de tocar o chão.

Henry sentiu o sangue abandonando seu rosto.

Sophia.

Sophia estava com Nathalie.

A escola suspendera as atividades naquela manhã devido às tempestades eletromagnéticas que perturbavam a rede de transporte da Cintura Média. Não havia com quem deixá-la.

Aquilo nunca fora incomum.

Sophia crescera entre laboratórios, corredores de pesquisa e jardins suspensos da Eidolon. Gostava das luzes. Gostava das correntes de Mana. Gostava de desenhar o que dizia enxergar dentro delas.

Henry quase pedira que Nathalie a deixasse em casa.

Quase.

Mas estavam tão perto.

Tão absurdamente perto.

Agora essa proximidade era uma sentença.

Saiu antes mesmo que o técnico terminasse de falar.

 

[...]

 

As ruas das Alturas Brancas estavam cheias.

Mas ninguém corria.

Ainda não.

As pessoas permaneciam paradas e observavam a torre da Eidolon como quem contempla uma revelação religiosa ou um espetáculo cuidadosamente encenado. Drones de segurança sobrevoavam os jardins suspensos emitindo comandos contraditórios. Algumas interfaces públicas ainda insistiam em exibir mensagens automáticas de tranquilização — Oscilação energética temporária. Protocolos de contenção em andamento. Mantenha a calma. — enquanto, acima delas, o próprio céu se desfazia.

Henry atravessou a multidão sem perceber os próprios passos.

Correndo em direção ao complexo central, viu os primeiros campos de isolamento sendo erguidos ao redor da torre. Barreiras translúcidas subiam do solo como lâminas líquidas, tentando encapsular a expansão luminosa que continuava a derramar-se do núcleo superior da estrutura.

Mas não funcionava.

Nada funcionava.

Cada vez que um campo entrava em contato com as correntes de Mana, dissolvia-se imediatamente.

Gelo sob fogo invisível.

Tentou acessar os canais internos da Eidolon.

Nenhuma resposta.

Tentou Nathalie.

Silêncio.

Tentou Sophia.

Nada.

O pequeno comunicador infantil que havia programado pessoalmente para ela permanecia inacessível.

A ausência daquele sinal foi pior do que qualquer alarme.

Quando finalmente alcançou o perímetro principal, dois agentes de contenção bloquearam seu caminho antes que pudesse atravessar a linha de segurança.

— Não pode entrar.

Henry mal reconheceu a própria voz.

— Minha esposa está lá dentro.

O agente consultou algo na interface diante dos olhos.

Hesitou.

Sempre a hesitação.

— Doutor Valen… sua identificação já foi registrada como familiar de pessoal desaparecido.

Desaparecido.

A palavra atingiu-o com mais violência do que qualquer confirmação de morte poderia ter feito.

Não ferido.

Não evacuado.

Não morto.

Desaparecido.

Como se alguém pudesse simplesmente desaparecer.

Como se Nathalie pudesse desaparecer.

Como se Sophia pudesse desaparecer.

 

[...]

 

Mais tarde, ninguém conseguiria reconstruir com precisão o que havia acontecido dentro da Câmara Central.

Os registros foram encontrados corrompidos. Arquivos inteiros haviam sido apagados.

Fragmentos de vídeo exibiam apenas interferência luminosa e ruído estático.

Sensores registraram níveis de Mana muito além de qualquer escala previamente concebida.

Os algoritmos de contenção falharam em cascata.

As inteligências auxiliares da Eidolon desligaram-se sozinhas. Reconheceram algo para o qual não haviam sido programadas.

Os sobreviventes falaram de uma abertura.

Nunca de uma explosão.

Uma abertura.

O espaço dentro da câmara tornou-se subitamente maior do que o edifício capaz de contê-lo.

Uma distância impossível nasceu dentro de um único ponto.

Alguns técnicos disseram ter ouvido vozes.

Outros relataram memórias que não lhes pertenciam.

Um homem insistiu, antes de perder completamente a sanidade, que vira pessoas caminhando dentro da luz.

Não silhuetas.

Não ecos.

Pessoas.

Existiam do outro lado.

Henry recusou-se a ouvir esses testemunhos durante anos.

Porque havia apenas uma pergunta que importava.

Onde estavam Nathalie e Sophia?

Nenhum corpo foi encontrado.

Nenhum resíduo biológico.

Nenhuma assinatura genética.

Nenhuma matéria recuperável.

Apenas o pequeno pingente dourado de Nathalie, fundido parcialmente ao vidro interno da Câmara.

E o caderno de desenhos de Sophia.

Intacto.

Aberto.

Na última página, uma espiral.

Desenhada repetidas vezes.

Cada vez maior.

Cada vez mais ampla.

Até ultrapassar as margens do papel.

Até tornar impossível distinguir onde o desenho terminava e onde começava alguma outra coisa.

Foi naquele instante que Henry começou a compreender o verdadeiro peso da culpa.

Não porque tivesse perdido as duas.

Mas porque talvez tivesse sido ele quem abrira a porta por onde haviam sido levadas.

Durante anos acreditara estar construindo uma ponte entre consciência e transcendência.

Naquela tarde, porém, o Mana deixara de ser ponte.

Tornara-se abismo.

E Nathalie…

Sophia…

haviam desaparecido dentro dele.



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