Quero embarcar nessa aventura.
Hoje separei uma playlist de músicas que parecem ter sido feitas para abrir portais.
Portais para florestas antigas, ruínas esquecidas, dungeons, cidades suspensas, desertos sagrados, orcs e goblins — mas, sobretudo, portais para um lugar muito antigo dentro de mim.
Tenho sentido falta da fantasia.
Esse sempre foi o idioma secreto (ainda que nem tão secreto assim) de boa parte da minha vida: os RPGs, os livros, os videogames, os animes. Desde a infância, esse universo não apenas povoou meus sonhos — ele me ofereceu imagens para pensar, coragem para atravessar medos e, não raro, até um modo de me aproximar das pessoas.
Às vezes me pergunto por que essas histórias sempre falaram comigo com tanta intimidade.
E desconfio que já conheço parte da resposta.
Eu gosto de histórias, sim — mas não apenas delas. Gosto do que elas tornam possível. Porque foi também através delas que aprendi a dialogar, a imaginar o outro, a reconhecer, em alguém distante, uma inquietação parecida com a minha.
O ser humano precisa sonhar.
Nos últimos meses, tenho tentado me reintegrar. Reunir partes de mim que ficaram espalhadas pelo caminho. Ao mesmo tempo, tento sustentar o peso do adulto que responde pelos próprios deveres, encara a realidade e segue em frente — mesmo sem saber, com clareza, para onde está indo. Escolhendo ser quem é.
Talvez seja por isso que a fantasia ainda me chama.
Não como fuga, mas como lembrança.
Como se alguma parte de mim ainda soubesse que, antes de encontrar um caminho, é preciso manter viva a capacidade de vislumbrá-lo.
Não é à toa que tantas histórias de fantasia falam de retorno.
Aventureiros que querem voltar para casa.
Caminhos longos, provas difíceis, encontros transformadores — como em Caverna do Dragão.
E convenhamos: aquele desenho nunca foi muito claro nas intenções.
O Mestre dos Magos aparecia, soltava um enigma, desaparecia — e ninguém nunca sabia se ele estava ajudando… ou só complicando ainda mais a situação.
O Vingador parecia o vilão — mas às vezes nem tanto.
E no fim, ninguém voltava pra casa.
Hoje, olhando de longe, dá para enxergar ecos da caverna de Platão, da roda de Samsara, dos três venenos…
Mas, na época, eu tinha outras prioridades.
Meu foco não estava na iluminação.
Estava naquela menina ruiva de capa roxa.
A Sheila foi, sem dúvida, meu primeiro grande dilema existencial – meu primeiro crush.
E os dragões?
Figuras de poder, imensas, belas e perigosas, cuspindo fogo.
Guardam tesouros, sim — mas também simbolizam aquilo que nos prende: a cobiça, o apego, os desejos que nos desviam. Como no mito do Anel dos Nibelungos, onde o poder sempre cobra mais do que entrega.
Talvez essas histórias nunca tenham sido apenas sobre mundos imaginários.
Talvez sempre tenham sido sobre nós.
E hoje, ouvindo essas músicas, algo em mim encontrou uma imagem simples — meio sorrateira, mas impossível de ignorar:
a de uma semente.
Uma semente não sabe exatamente para onde vai.
Ela não vê a árvore que pode se tornar.
Não controla o tempo, o clima ou o solo.
Mas ainda assim, cresce.
Entre a terra e a sombra, ela se move.
Força passagem onde não há espaço.
Se abre, mesmo sem garantias.
E, de alguma forma, busca a luz.
Tenho a impressão de que estou exatamente nesse ponto.
Crescendo sem mapa.
Me desenrolando devagar.
Tentando confiar em um movimento que ainda não compreendo por completo.
E, no meio disso tudo, algumas lembranças voltam — não como respostas prontas, mas como alertas.
Você não pode comer dinheiro.
Não quando a última árvore cair.
Não quando os rios já não puderem sustentar a vida.
Existe algo essencial que estamos esquecendo — e talvez por isso tanta coisa, dentro e fora de nós, pareça fora de lugar.
Então, se eu ainda estou nesse processo de me reencontrar, talvez o que me reste seja isso:
deixar que o que em mim ainda está vivo continue tentando crescer.
Mesmo que doa.
Mesmo que seja lento.
Mesmo que não faça sentido o tempo todo.
Que minhas lágrimas, quando vierem, não sejam só peso — mas também água.
Que eu consiga regar o pouco de terra que ainda reconheço como meu.
Porque, no fundo, assim como a semente, tudo o que existe quer viver.
E talvez crescer — de verdade — não seja sobre ter todas as respostas.
Mas sobre continuar, apesar delas.
Ooh, children
We have the answer to all our your fears
It’s short, it’s simple, it’s Crystal clear
It’s round about and it’s somewhere here
Lost amongs our winnings
Oh children
Lift up your voice
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